A esquerda e sua bola de ferro

A esquerda e sua bola de ferro

Lula atrasa de maneira irreversível um desejável processo de renovação da esquerda.

Mario Vitor Rodrigues

17 de dezembro de 2017 | 09h49

Foto: ANDRE DUSEK/Estadão

 

“A hora é de ação e não de palavras […] transformar fúria, revolta, indignação e mesmo o ódio em energia, para a luta e o combate”, declarou José Dirceu na última quarta-feira, em nota publicada no site do diretório do PT em Ribeirão Preto. Abusado, o ex-ministro de Luiz Inácio e ídolo petista foi além: “Denunciar, desmascarar e combater a fraude jurídica e o golpe político nas ruas para ir às urnas e derrotar os inimigos da democracia, da soberania do povo trabalhador e do Brasil”.

Não resta dúvida, em face de um atiçamento tão irresponsável, o ideal seria poder contar com o repúdio imediato por parte da mídia e dos chamados formadores de opinião. Por outro lado, talvez sejam de fato poucos aqueles ainda capazes de se emocionar com os derradeiros rosnares de um velho criminoso — logo de volta à cela de onde não deveria ter saído.

A espuma branca costumeira na boca de Dirceu, Gleisi Hoffmann, Lindbergh Farias e peões menos votados, porém, escancara um problema maior para a esquerda do que a delinquência ou o chafurdar em estratégias políticas datadas: ao sequestrar o PT de olho em livrar-se das garras da Justiça, Lula atrasa de maneira irreversível um desejável processo de renovação da esquerda. E não apenas desejável para quem segue seus preceitos, mas também para o país.

Não me levem a mal, estou muito longe de acreditar que a simples capitulação de Luiz Inácio e seus sequazes baste para reformar os conceitos de petistas, psolistas e comunistas Brasil afora. Bem ao contrário, tudo indica que o lulismo, assim como o peronismo na Argentina e o brizolismo no Rio de Janeiro, desgraçadamente levará gerações antes de sumir das pautas ditas progressistas.

Aliás, uma rápida consulta ao cardápio de opções nesse campo político já é mais do que suficiente para confirmar o mau presságio. Ignoremos Ciro Gomes e Jaques Wagner, burros velhos que de todo modo nada acrescentam, quem resta? Fernando Haddad? Marcelo Freixo? Quem sabe Manuela d’Ávila ou sempre claudicante Marina Silva?

Ainda assim, insisto, o quanto antes esse processo tiver início, melhor será para o debate e o amadurecimento do cidadão que se habituou — graças a um processo de secessão imposto há décadas por essa mesmíssima turma — a debater política como se estivesse na arquibancada do Maracanã.

Trocando em miúdos, o diálogo sobre questões fundamentais para o destino das próximas gerações passa obrigatoriamente por um amadurecimento que só o equilíbrio pode proporcionar.

Um entrave que cabe à esquerda resolver.

 

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