A Gilmar o que lhe cabe

A Gilmar o que lhe cabe

O divisionismo instrumentalizado levou muitos de nós a perdermos o bom senso.

Mario Vitor Rodrigues

24 Dezembro 2017 | 08h07

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

 

Não se trata de teoria, mas de fato consumado: dispostos a tudo para alcançar o poder, Lula e o Partido dos Trabalhadores estimularam sentimentos de rancor e ódio na sociedade brasileira. Nesse sentido, cidadãos em maiores apuros, confrontados com uma desigualdade social inegável, foram toureados para enxergar uma específica parcela da sociedade como culpada por suas diárias adversidades. E não foi apenas o status social que serviu como linha de corte, a cor da pele também.

Para o azar da atual e das futuras gerações, tal estratégia não poderia ter funcionado melhor. A habilidade do PT em surfar essa onda de cizânia foi tamanha que o partido só começou a claudicar quando desandou a dar tiros no próprio pé. Trocando em miúdos, se os seus grão-mestres não fossem tão ávidos por status, poder e dinheiro, muito provavelmente Dilma Rousseff jamais teria passado perto da presidência da República, dando início à derrocada do petismo. Que o digam José Dirceu e Antonio Palocci.

Isso posto — e hoje em dia já tendo sido desmascarada a tese dos milhões que teriam deixado a pobreza —, o verdadeiro legado de Luiz Inácio e seu bando não poderia ser mesmo outro que não o cacoete de enxergarmos qualquer assunto pela ótica do nós contra eles.

A popularidade de Jair Bolsonaro talvez seja o exemplo mais eloquente desse efeito. Digo, o sujeito deveria causar repulsa pelo populismo barato e pelas sandices que defende, entretanto conseguiu amealhar um número considerável de apoiadores precisamente por ter consolidado a imagem de alguém em extrema oposição à esquerda.

O episódio mais atual, contudo, é o do ministro do Supremo, Gilmar Mendes.

Em linhas gerais, o ministro pode fazer o diabo — aliviar a barra do casal Garotinho, de Adriana Ancelmo e do governador paranaense Beto Richa (PSDB), por exemplo — que logo aparece alguém citando o ministro Luís Roberto Barroso para tentar fazer o contraponto. Como se, de fato, existisse uma peleja, uma disputa para ver quem é o menos sóbrio ou o mais crápula, dependendo do lado na arquibancada. Como se, enfim, o pecado de um anulasse o daquele outro.

É claro que Barroso não fez nada para merecer um fã-clube. O mesmo vale para todos os demais ministros. Vale, inclusive, para a incensada Cármen Lúcia, até aqui uma grande decepção para quem já se cansou das suas frases de efeito e esperava uma postura mais firme na presidência do Tribunal.

Só que a atuação de Gilmar nada tem a ver com isso.

Além dos episódios já citados, o fato de não se declarar suspeito para julgar o caso de Jacob Barata e ter revogado a sua prisão seguidamente, os pronunciamentos públicos inapropriados, a promiscuidade com o presidente Michel Temer e até a sua persona grotesca, incompatível com um cargo que pede decoro, nada têm a ver com isso. Tampouco os dilemas e comportamentos igualmente criticáveis de seus pares.

A grande ironia nisso tudo é que a pergunta “e o Barroso?”, literal ou subliminar no discurso de quem se recusa a deixar a bolha da dicotomia, segue a mesma lógica de “e o Cunha?”, repetida fartamente pelos petistas em um passado não tão distante. Apenas está sendo utilizada no sentido contrário.

Ao longo dos anos, o divisionismo instrumentalizado levou muitos de nós a perdermos o bom senso. Políticos, ministros ou mesmo procuradores passaram a representar, não servidores públicos compromissados com a sociedade, mas bandidos e mocinhos de folhetins.

No fim das contas, insisto, nenhum deles merece a nossa torcida ou compaixão.

Em especial Gilmar Mendes.

Com todo o merecimento.