A razão e o cinismo do presidente

A razão e o cinismo do presidente

Temer está coberto de razão, só faltou reconhecer que faz parte do problema.

Mario Vitor Rodrigues

19 Novembro 2017 | 08h57

Arte: UOL

 

“Se nós não prestigiarmos certos princípios constitucionais, a nossa tendência é sempre caminhar para o autoritarismo […]. Temos até, digamos, uma certa tendência para a centralização”, declarou o presidente Michel Temer durante uma celebração ao Dia da Proclamação da República ocorrida em Itú (SP). Em seguida, chegou a acrescentar que os momentos de oscilação democrática vividos pelo país não foram “simplesmente por um Golpe de Estado”, mas porque o povo “também queria”.

Não resta dúvida que falta autoridade moral a Temer para pontuar nossas tendências antidemocráticas. Afora isso, vale revisitar momentos históricos, mesmo recentes, que sustentam com folga a fala presidencial.

Ou alguém há de negar o apoio por parte da população aos militares em 1964? Ora, tanto esse existiu que ainda hoje é percebido — um coro inflado até por quem não viveu a ditadura militar.

De resto, acaso exista verdade na tese de que o Golpe militar foi uma reação preventiva à instauração de um regime radical no país, como muitos defendem, e se essa hipótese igualmente chegou a amealhar apoio considerável por parte dos brasileiros, fica a pergunta: onde está o equívoco na afirmação do presidente? Não caberia admitir essa tendência para a centralização? Nem mesmo se levarmos em conta que todos os presidentes eleitos desde a reabertura política sofreram ameaça de impeachment?

É inegável, os tempos mudaram. Assim não fosse e a própria operação Lava-Jato inexistiria. Entretanto, nosso flerte com a truculência, um certo fetiche por atalhos nada democráticos, transcende épocas e ignora ideologias. Vai dos artistas ao MBL; dos black blocs às invasões do MST. Sem falar nos grupos de justiceiros que pululam Brasil afora. A verdade é que nunca faltam causas talhadas para justificar o nosso viés autoritário.

Não por acaso Lula já incitou “porrada nos coxinhas”, Dilma admitiu fazer “o diabo” para vencer eleições e Bolsonaro até defendeu fuzilamentos, sem que isso trouxesse prejuízos a imagem de nenhum deles.

É perturbador admitir, mas Temer está coberto de razão. Só faltou reconhecer que faz parte do problema.

Não pela narrativa que fala sobre traição a Rousseff, definitivamente desmoralizada com o anúncio de alianças entre o Partidos dos Trabalhadores e o PMDB e várias praças do país, mas pelo fato de cerrar fileiras com o que há de mais retrógrado na nossa política, lá se vão quase quarenta anos.

Por ser figura central em um partido que conta com Moreira Franco, Henrique Eduardo Alves, Padilha e Jucá. Sem falar em Requião, Renan Calheiros e Jader Barbalho, ou nos já encarcerados Cabral, Cunha e Geddel. Isso, e também por ter sustentado o PT em seu plano de perpetuação no poder através de assaltos aos cofres públicos e aparelhamento do Estado.

Sim, Temer está certo, mas desde sempre esteve errado.