Bolsowyllys

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Trocando em miúdos, tanto Jean quanto Jair são sócios, e únicos beneficiários, na estratégia de emburrecer o debate para triunfar nas urnas.

Mario Vitor Rodrigues

09 Abril 2017 | 10h09

Foto: Diego Vara|Agência RBS

Foto: Diego Vara|Agência RBS

 

“Alvíssaras!”, exclamariam os mais antigos. Graças à saraivada de escândalos descortinados pela Polícia Federal, o brasileiro comum — desempregado, com as contas atrasadas e sem perspectivas — finalmente começa a atinar para o nós contra eles que realmente interessa. Um cenário onde não existem ideologias ou caciques merecedores de confiança, mas corporativismo explícito, sempre que o establishment se vê ameaçado.

Pelo menos no âmbito dos partidos políticos, talvez o embate entre PT e PSDB pinte como o exemplo mais claro de falsa dicotomia. E nem é difícil justificar a interpretação equivocada do cidadão, obrigado que é a participar de um sistema talhado para confundir. Contudo, nada supera em patetice esse suposto duelo entre Jean Wyllys e Jair Bolsonaro.

Ao contrário do que acontece entre petistas e tucanos, não se trata de uma rivalidade inverossímil pelo fato de ambos apresentarem mais semelhanças do que diferenças entre si. Quando o assunto em discussão tem potencial para ser abordado sob um viés populista, seus discursos são de fato antagônicos, ainda que parecidos no tom histriônico. A questão é que um não sobrevive sem o outro.

Trocando em miúdos, tanto Jean quanto Jair são sócios, e únicos beneficiários, na estratégia de emburrecer o debate para triunfar nas urnas.

Durante a última semana, aliás, foi possível perceber exemplos claros dessa estratégia. Primeiro foi a vez de Bolsonaro, em evento sediado pelo Hebraica carioca, não decepcionar o circo armado e regurgitar toda sorte de sandices. Atacou gays, refugiados e religiões africanas, além de prometer que, se eleito presidente, “todo mundo terá uma arma de fogo em casa”.

Não por acaso, dias depois foi a vez de Wyllys fazer o contraponto. Logo após ter sido advertido pelo Conselho de Ética da Câmara por cuspir em seu conveniente nêmesis, o parlamentar psolista fez questão de dirimir qualquer dúvida sobre um possível arrependimento: “cuspiria de novo”.

Que cada um é fiel ao seu estilo, não resta dúvida, mas talvez o socialista disfarce melhor. Vestir a capa das minorias sempre lhe foi útil, entretanto é simulando virtudes para as câmeras, como se ainda estivesse em um reality show, que o deputado cultiva sua fama de correto. Mesmo militando em um partido amoral como é o caso do PSOL, habituado a endossar ditaduras e com integrantes capazes de tergiversar sobre terrorismo e assassinatos.

Já Bolsonaro não passa de um covarde. É covarde como homem, quando abusa de sua imunidade parlamentar para agredir indiscriminadamente, mas também como político, ao abster-se de votações importantes. Nunca se sabe, dada a sua grotesca retórica, o sujeito pode até sofrer de déficit cognitivo, e no entanto precisa ser combatido de todas as formas.

Jean Wyllys e Jair Bolsonaro, anotem aí, não são opostos que se atraem, mas aberrações morais que se complementam. Fazem lembrar, isto sim, aqueles monstrengos mitológico típicos em vários folclores, metade homem, metade bicho.

Com a diferença que são bem reais e não merecem o nosso deslumbramento.