Despertar é preciso

Despertar é preciso

A questão que realmente interessa, isto sim, é tratar de arrefecer nossa preferência pelo auto-engano.

Mario Vitor Rodrigues

23 Abril 2017 | 12h39

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(Imagem; arquivo internet)

 

“Em tempos tão bicudos, não é lá muito prudente tecer elogios ou ficar otimista com este ou aquele gestor público”, escrevi aqui mesmo, neste espaço, há quase dois meses. A sentença finalizava um texto simpático a João Doria, o prefeito paulista que, contam as pesquisas, em pouco tempo amealhou popularidade suficiente para sonhar com a presidência da república.

E a sentença estava certa.

De lá para cá, não só o mandatário paulistano escorregou feio no episódio dos grafites na 23 de Maio – acima de tudo, errou na forma, o que acabou admitindo posteriormente -, mas também favoreceu saias justas desnecessárias a integrantes de sua equipe, como o secretário de Educação, Alexandre Schneider, e o de Cultura, André Sturm. Sem falar na mais recente de todas: o constrangedor vídeo ao lado de Soninha Francine, onde anuncia a saída da vereadora do comando da secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social. Vale salientar, no comunicado, insisto, de uma grosseria impressionante, o prefeito garante que a decisão foi tomada “em comum acordo”, fato este logo negado pela própria Soninha.

Para culminar, o prefeito tucano entrou com um processo na 22ª Vara Cível de São Paulo, e foi atendido, onde pede a quebra de anonimato de usuários do Facebook que organizaram um protesto contra a sua gestão.

O ponto aqui nem é lamentar a possibilidade de que Doria – ou pelo menos o político já imaginado por considerável parcela da sociedade em tão pouco tempo – não passe de uma miragem. Aliás, se a sentença abre-alas deste artigo está correta, igualmente não seria justo considerar premissas negativas. A questão que realmente interessa, isto sim, é tratar de arrefecer nossa preferência pelo auto-engano.

Por exemplo, sem falar no movimento calculado com o intuito de provocar auê, caso sua  prisão seja mesmo confirmada, vale a pergunta: em que bases a desfaçatez de Lula se sustenta para que ele ainda ouse lançar-se candidato à presidência?

Por qual razão Luiz Inácio ainda não está de joelhos, suplicando perdão ao povo brasileiro por ter traído sua confiança, roubado o seu dinheiro e ferido de morte a democracia brasileira, mas desafiando a própria justiça e se colocando, outra vez, no papel de salvador da pátria?

Pois a resposta, tão simples quanto trágica, pode ser respondida com outra pergunta: e por que haveria de fazê-lo, se ainda consegue apoio robusto de uma turba mesmerizada?

No fundo, quando paixões estão envolvidas, seja na arquibancada de um estádio ou em em meio a um comício, nossa tendência é mesmo a de justificar as escolhas feitas sem olhar para os fatos. Especialmente quando o assunto é a política, diga-se, o maior prejuízo sequer está ligado ao açodamento em si, mas à posterior recusa do sujeito em admiti-lo.

É compreensível, mas precisa parar.

Seja envolvendo João Doria ou qualquer outra figura política, precisa parar.

Não é razoável que, mesmo após tantos escândalos de corrupção descortinados, e com as vísceras de um sistema falido expostas, ainda tenhamos cara de pau suficiente para defender quem foi eleito para servir bem.

Mesmo que, equivocadamente, estejamos em busca de um novo herói nacional.

Aliás, principalmente em momentos assim.

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