Dicotomia para que te quero (até quando?)

Dicotomia para que te quero (até quando?)

Não que a maioria de nós seja uma sumidade em Direito, mas tornou-se importante escolher um ministro para chamar de seu.

Mario Vitor Rodrigues

29 Outubro 2017 | 08h49

foto: internet

 

“Não transfira para mim essa parceria que vossa excelência tem com a leniência em relação à criminalidade de colarinho branco”, sapecou o ministro do STF, Luís Roberto Barroso,  em resposta à acusação, feita por Gilmar Mendes, de que teria soltado José Dirceu da cadeia. E não foi só. “Vossa excelência fica destilando ódio o tempo inteiro. Não julga, não fala coisas racionais, articuladas, sempre fala coisa contra alguém, está sempre com ódio de alguém, está sempre com raiva de alguém. Use um argumento”, pediu o ministro no bate-boca que já figura como um dos mais graves e patéticos na história do Supremo Tribunal Federal.

Na opinião de muitos, Barroso foi certeiro, mas que não se iluda: boa parte do apoio recebido nada tem a ver com a sua conduta como juiz, mas à antipatia gerada pela habitual postura agressiva de Gilmar. A ela e ao fla-flu pseudoideológico que permeia o debate. Em relação a esse segundo ponto, inclusive, vale a reflexão.

O estardalhaço protagonizado pelos dois magistrados serviu para referendar a longevidade do sucesso obtido pela esquerda — PT à frente — quando há décadas determinou o caminho responsável por conduzi-la ao poder: dividir o país da maneira mais profunda possível.

E como negar tal vitória se, logo após o referido quiproquó, a mera ponderação da fala de um ou de outro automaticamente transformava o sujeito em “esquerdista”, “abortista”, “golpista” e por aí em diante? Não que a maioria de nós seja uma sumidade em Direito, mas tornou-se importante escolher um ministro para chamar de seu.

Seria ótimo se eu estivesse falando somente de militantes ferrenhos ou jovens que, desacostumados a buscarem informação sobre política, aderem facilmente a toda sorte de estereótipos. Infelizmente, porém, até formadores de opinião promoveram essa tola dicotomia. Como se amanhã ou depois não pudessem se decepcionar com decisões tomadas por este ou aquele ministro predileto. Ou, pior ainda, como se isso já não tivesse acontecido, jogando por terra a própria lógica de torcida organizada.

Não serei eu a bancar o ingênuo, é claro que ministros do Supremo não deixam de ter suas referências morais e visões de mundo, por mais rígidas que sejam as premissas de seus cargos. Além de Barroso e Gilmar, Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski estão aí para não me deixar mentir. O ponto, entretanto, deveria ser outro: ou bem nos negamos a enxergar o país pela ótica dos fanáticos, deixando de lado os antolhos impostos por quem sabe jogar o jogo da cizânia e dele se favorece, ou continuaremos a fazer papel de marionetes.

Com calafrios de autodeterminação a cada ciclo eleitoral, mas sempre marionetes.