“Intervenção militar”: uma nova narrativa na praça

“Intervenção militar”: uma nova narrativa na praça

Era esperado um discurso crítico ao decreto por parte das legendas em oposição à presidência, mas essas não estão sozinhas

Mario Vitor Rodrigues

04 Março 2018 | 08h37

Imagem: internet

 

A tragédia da violência no Rio não é recente. Vem sendo cultivada há décadas por populistas interessados em se perpetuar no poder, hábeis na hora de contrapor o combate ao crime organizado à necessidade de políticas sociais efetivas — como se ambos fossem excludentes. Por outro lado, a sua instrumentalização política nunca foi tão intensa quanto agora, com a intervenção federal na segurança do Estado.

Era esperado um discurso crítico ao decreto por parte das legendas em oposição à presidência, mas essas não estão sozinhas. Contam em grande parte com o apoio de redações e programas de debate na televisão. Sem falar em um personagem assaz popular hoje em dia: o cientista político ideologicamente comprometido.

O próprio governo pensa em lograr sucesso político com a medida? Claro que sim. Existe, entretanto, além do óbvio, o fato de que toda administração espera se sair bem em suas decisões, um singelo detalhe: a medida visa oferecer à sociedade uma condição básica para a sua própria existência, que é a segurança. Lutar contra ela, portanto, significa remar no sentido oposto ao do interesse comum.

Tal narrativa chegou às raias da ousadia ultimamente com uma descabida popularização de alusões aos tempos da ditadura. Como se o propósito que ensejou a presença de militares agora — uma cidade símbolo sitiada por criminosos das mais variadas graduações — pudesse ser mascarado. Como se a época em que as liberdades foram tolhidas, torturas e execuções institucionalizadas, sequer estivesse no nosso horizonte.

E extrapolou qualquer senso de honradez com a repetição do termo “intervenção militar”, em colunas, matérias e comentários por parte de quem tem o dever de informar as coisas como são. Não como seus calores ideológicos gostariam de sugerir que fossem. Idem para aqueles que  se autoproclamam estudiosos, os ditos cientistas políticos, se não pela premissa profissional, ao menos em respeito à seriedade imposta pelo momento.

Não existe dilema possível: na hipótese de um presidente da República lançar mão do artigo 34 da Constituição Federal em atenção à segurança dos cidadãos para a garantia da lei e da ordem, o nome que se dá a isso é intervenção federal.

Sugerir alternativas a essa realidade, ou abusar de malabarismos retóricos com esse fim, ofende não só a inteligência alheia, mas também a memória daqueles que de fato sofreram torturas, foram obrigados a deixar o país ou mesmo a viver sob o jugo da tirania.

Acima de tudo, porém, é uma demonstração de desprezo pelo sofrimento daqueles que hoje em dia, neste exato instante, são reféns do poder paralelo, de traficantes munidos com armamento pesado e dos políticos que permitiram tamanha calamidade.

E não há ciranda eleitoral que justifique tanta falta de empatia