Maldição sem fim

Maldição sem fim

Brizola foi o responsável por afrouxar o combate ao crime organizado justamente quando este começava a recrudescer nas favelas.

Mario Vitor Rodrigues

24 de setembro de 2017 | 11h39

Imagem: internet

 

De um lado, a entrada para a Floresta da Tijuca, os morros do Borel, da Casa Branca e da Formiga. Do outro, as antenas do Sumaré e uma nesga do Salgueiro. São essas as paisagens que contemplo quando decido trabalhar em casa. Tudo depende do momento, se prefiro aproveitar a escrivaninha antiga — convenientemente ajustada ao lado da cama — ou o conforto da poltrona que fica na sala.

Àqueles pouco familiarizados com a região, lembro que a Tijuca, além de ser um dos bairros mais antigos do Rio, berço de cidadãos ilustres e colégios tradicionais, também é cercada de favelas.

Não foi por acaso que o clima nas suas ruas permaneceu inalterado durante a última sexta-feira, enquanto a Rocinha virava assunto pelos tiroteios que interromperam o acesso à Barra via Zona Sul. Se estampidos já não assustam quando são ouvidos pelas redondezas, que dirá do outro lado da cidade.

Apoiar-se nas próprias referências para decifrar comportamentos da sociedade não é exatamente uma estratégia original, reconheço, mas, nesse caso específico, o diagnóstico não poderia ser mais preciso: esse desdém para com a violência urbana, especialmente aquela ligada ao tráfico, não é um sentimento novo, tampouco exclusivo de tijucanos e moradores em zonas de conflito. Muito pelo contrário, abrange grande parte da população e teve início há mais de três décadas, precisamente a partir de 1983, quando Leonel Brizola foi eleito pela primeira vez governador.

Populista como poucos e crítico da forma de atuação da polícia nas áreas mais pobres da cidade, Brizola foi o responsável por afrouxar o combate ao crime organizado justamente quando este começava a recrudescer nas favelas, graças à entrada de drogas e armamento mais sofisticado.

Com mais uma vitória eleitoral em 1991, o cenário, que já era dramático, ganhou contornos definitivos: enquanto o brizolismo se estabelecia como referência — de Marcelo Alencar a Garotinho, passando por Cesar Maia e Eduardo Paes, raros são os políticos eleitos nos últimos 30 anos que não derivaram dessa linhagem — o crime organizado iniciava sua escalada para mudar de patamar bélico, financeiro e territorial.

Hoje em dia, com o desmantelamento das UPPs (uma política paliativa que apenas serviu para momentaneamente descentralizar criminosos que agora começam a voltar para seus postos de origem), propostas concretas a respeito do tema são cada vez mais raras. Em número muito menor, por exemplo, do que comparações descabidas entre o Rio e cidades literalmente destruídas pela guerra ou pelo tráfico.

Está tudo certo, capital do Império, depois da República, referência no exterior e orgulho nacional por sua exuberância, é compreensível que essa cidade provoque toda sorte de sentimentos. Do escracho à devoção.

Ainda assim, o Rio continua sendo o Rio. Essa é a boa notícia.

A ruim é que o brizolismo insiste em permanecer vivo.

E não dá sinais de esmorecer.

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