O grande erro da esquerda

O grande erro da esquerda

Mario Vitor Rodrigues

22 Fevereiro 2017 | 16h13

 

Joa Raedle/Getty Images/AFP

Joa Raedle/Getty Images/AFP

 

“When they go low, we go high” – Michelle Obama, 25 de julho, 2016

Em campanha pelo postulado de Hillary Clinton à Casa Branca, e tendo como cenário um Wells Fargo Center entupido de seguidores para a Convenção Nacional do Partido Democrata, a então primeira-dama não tomou fôlego antes de recitar a frase que seria celebrada pela mídia e faria delirar a plateia presente: “quando eles baixam o nível, nós o elevamos”.

Pior mesmo só a própria candidata, meses depois, ao afirmar que metade dos eleitores inclinados a votar em Donald Trump era deplorável.

Não me entendam mal, resta indiscutível que as políticas defendidas pelo recém-eleito presidente americano eram e continuam sendo abjetas, apenas não me pareceu a melhor das estratégias eleitorais rechaçar aqueles que deveriam ser seduzidos.

O resultado já é história, mas os deslizes de Michelle e Hillary em um momento de tanta visibilidade serviram para descortinar o grande pecado da esquerda mundo afora, inclusive no Brasil: o de outorgar-se o monopólio da moralidade.

Ou seja, de que apenas a esquerda é capaz de nutrir compaixão pelas minorias, de se sensibilizar com questões sociais e, enfim, de apresentar alternativas para uma sociedade melhor, mais próspera e humana.

Agora mesmo, diga-se, com a indicação de Alexandre de Moraes para o STF, esse mesmo pessoal ensaia um discurso que chega a flertar com a esquizofrenia. Ora essa, como podem ignorar a nomeação de Dias Toffoli, sobre quem recaíam as mesmas acusações de promiscuidade com o Executivo?

Idêntica estratégica se repete há meses, desde que Michel Temer assumiu o poder. Dá até a impressão de que os problemas atuais nada têm a ver com os rombos e roubos engendrados durante os governos petistas, ou mesmo que o PMDB caiu de paraquedas no Palácio da Alvorada.

Trata-se de um discurso dissimulado e que prejudica os próprios interesses ditos progressistas, não resta dúvida. Entretanto, seu maior prejuízo respinga na própria sociedade.

Falo aqui do empobrecimento do debate e até da sua infantilização. Afinal, a ninguém deveria impressionar a dificuldade do cidadão comum em enxergar o cenário com a retidão necessária, uma vez que ele é toureado para avaliar o seu próprio destino como se estivesse em uma arquibancada.

Por fim, como se esse desserviço não fosse suficiente, tal retórica serve como incubadora de um sentimento amargo e intolerante. Não é por acaso que Jair Bolsonaro e Trump estão sendo levados a sério.

Durante as eleições municipais do Rio, o candidato Marcelo Freixo, do PSOL, não perdia uma oportunidade de repetir “nós temos lado”. Como se, encastelados em uma torre apenas acessível aos virtuosos, não precisassem de mais ninguém.

Talvez esse não seja o único problema da esquerda, mas certamente é um deles.