“Reaça, vaza dessa praça!”

“Reaça, vaza dessa praça!”

Lugares-comuns à parte, foi o coro entoado em uníssono o que mais me impressionou: “reaça, vaza dessa praça!”

Mario Vitor Rodrigues

04 de junho de 2017 | 09h26

Imagem: montagem retirada da internet

 

Paris, junho de 2013. O pequeno apartamento em que me hospedei alinhava-se com os portões do belo Jardin des Tuileries. Minha estada na cidade tinha como propósito realizar pesquisas de campo para o próximo romance, entretanto, foi impossível ficar indiferente às imagens que vinham do Brasil.

Mesmo à distância, logo ficou claro um conflito de agendas nas manifestações que assombraram nossas capitais e o próprio Distrito Federal: de um lado, a classe média em peso vociferava contra a corrupção; do outro, uma garotada, mais interessada em posar como revolucionária, usando a estapafúrdia demanda pelo passe livre como pretexto.

Assim, entre curioso e ressabiado, durante uma daquelas tardes resolvi me dirigir à Praça das Nações, localizada no 11º arrondissement, onde uma manifestação organizada por brasileiros estava programada para acontecer.

Se me surpreendi com a pinta da turma? É claro que não. Estavam todos lá, do rapaz que considera chique deixar a barba desgrenhada à menina descolada da zona sul com consciência social, incluindo até um sujeito alto pacas, que, à guisa de reforçar o estereótipo, usava um capacete de operário.

Lugares-comuns à parte, foi o coro entoado em uníssono o que mais me impressionou: “reaça, vaza dessa praça!”

Rio, junho de 2017. Nada mudou. Convenhamos, não haveria por que ser diferente. Filhos de uma geração tão sonhadora quanto inescrupulosa, avessa a princípios éticos e incapaz de fazer um sincero mea culpa — salvo raras exceções, como os saudosos Ferreira Gullar e Paulo Francis, sem falar no ainda vivíssimo Fernando Gabeira —, aqueles que hoje beiram os quarenta anos são duplamente protagonistas.

Primeiro, pelo processo de doutrinação ao qual foram submetidos. Ainda na escola, passando pela faculdade, nos shows de rock ou lendo revistas e jornais, poucos não ficaram expostos ao típico discurso da esquerda, que visa dividir a sociedade por meio de falsas dicotomias.

Em segundo lugar, pela postura subserviente durante esse mesmo período e até hoje em dia.

Digo, não há justificativa que absolva a preguiça do sujeito em buscar um contraponto. Com o advento da internet, então, chega a ser impensável que um jovem de classe média, como os que estavam em Paris há 4 anos ou em Copacabana há poucos dias, se furte a estudar, de modo a diminuir as chances de comprar conversa mole de político ou ideologias bizantinas.

Se deixei a praça? Correndo.

Meu ouvido não é penico e estou ficando velho para aturar essa moçada cada vez mais  disposta a regurgitar autoritarismo.

Sem falar, é claro, que Paris oferecia programas bem melhores.