Abuso de álcool, internação e o diagnóstico: DDAH

Claudia Belfort

01 de fevereiro de 2010 | 18h42

Relato de Denise (nome fictício) sobreDDAH, desordem por déficit de atenção e hiperatividade, para a seção Vozes… (veja aqui como participar)

O distúrbio me faz ser uma pessoa impulsiva

Meu distúrbio foi “descoberto” na minha primeira internação, de num total de três, todas por abuso de álcool e drogas, que é uma das consequências do transtorno. Hoje aos 41 anos, faço tratamento ambulatorial na Unifesp com um psiquiatra que trata meu alcoolismo, além do abuso de substâncias ilícitas.

O DDAH, desordem por déficit de atenção e hiperatividade, é uma doença que interfere muito no dia a dia do paciente. Sou uma pessoa engraçada, adoro a vida, a noite, tomo minhas cervejas sem culpa, mas, no meu caso, o distúrbio me faz ser uma pessoa impulsiva, atrapalhada nos relacionamentos interpessoais, no trabalho, etc.

Também é intrínseco ao transtorno um problema puxar o outro, por exemplo: tenho insônia, tomo remédio para dormir e antidepressivo. Faço parte há cinco anos de um programa de redução de danos no Proad, programa de orientação e atendimento a dependentes da Unifesp, que tem entre seus criadores o Dr. Marcelo Niel, um excelente médico e para mim uma referência. Dentro dos princípios do programa, no caso dos pacientes que fazem abuso de álcool e maconha, por exemplo,  fumar maconha seria “menos mau” que beber, que encher a cara, como se diz, e aliviaria a “fissura” para ingerir álcool. A maconha aqui é parte do programa de redução de danos.

Sim, a doença é alvo de preconceitos e onde mais percebo é no meu ambiente profissional – trabalho na área de restaurantes – quando alguém fica sabendo que sou portadora de DDAH e que tomo remédios. Já minha família, moro com minha mãe, não se interessa muito em conhecer o distúrbio e até hoje não sabe muito bem o que tenho.

Dizem que não é aconselhável sair falando por aí que se toma remédio para isso ou aquilo, acho pura hipocrisia, já que as pessoas se entopem de remédio sem prescrição médica.

 Mas luto, adoro viver, estou prestes a entrar na faculdade, no curso de geografia. Vamos torcer. Quero fazer licenciatura para dar aulas, essa é a intenção pelo menos.

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A seção Vozes é um espaço para o leitor. O objetivo é permitir que portadores de distúrbios mentais  possam compartilhar experiências, relatar como receberam o diagnóstico, falar sobre seus temores e desejos,  ajudar outras pessoas na compreensão do problema e mostrar como vivem (bem ou mal) os que têm e escondem sua doença, assim como os que as revelam. Veja aqui como participar

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