“Colo de mãe cura”

“Colo de mãe cura”

Claudia Belfort

24 de março de 2010 | 22h33

Este é o relato de Sérgio sobre seu episódio de depressão para a seção Vozes… (veja aqui como participar) e sobre a maneira como ele lidou com o diagnóstico:

Gustav Klint www.worldimages.com“Há dois anos, tive um episódio de depressão. Foi desencadeado por uma separação. Coisas do coração. Aprendi que se o coração sofre, o cérebro sofre muito mais. Parecia que o mundo havia se desintegrado e que eu fui colocado dentro de uma piscina de piche.Tudo escuro sem luz. Qualquer movimento era pesado, demorado, tinha que fazer um esforço muito grande para me mexer.

Na minha frente não via absolutamente nada, só uma escuridão extrema. Escutava tudo muito baixinho, distante. Não consegui falar, gritar, pois o piche abafava minha voz e me tolhia os movimentos de braços e pernas. Meu corpo estava envolto em algo pesado, grudento, denso. A respiração virou algo viscoso, trabalhoso.

Parece um afogamento dentro de uma geléia! Nunca havia sentido isso. Nunca tinha me deparado com um bloqueio desse tamanho. É algo tão forte, tão intenso, que não se encontra forças para lutar contra, para empurrar, para nadar e sair da piscina de piche.

Sair do consultório de um psiquiatra com uma receita para remédios controlados e com diagnostico de depressão não é a coisa mais agradável do mundo. A sensação de impotência, de estar diminuído, é enorme, mas iria fazer tudo o que fosse preciso para sair da piscina de piche. Fui receitado com Rivotril (que chamei de balinha porque dava “barato”) para dormir e diminuir a ansiedade e com Sertralina para equilibrar a serotonina.

A  medicação (a qual agradeço muito pela minha recuperação) provocou algumas reações nas primeiras semanas, uma  sonolência, a cor vermelha me chamava atenção, eu acordava tonto. Mas entendi que sem a medicação não iria sair daquela piscina. Se tive outros efeitos colaterais? Devo ter tido. Mas o que mais vale a pena, me recuperar ou ficar ali ?

Me ajudou muito o carinho da minha mãe e o ombro de um amigo. Claro que o psicólogo que ouviu e me corrigiu e o meu psiquiatra também ajudaram. O resto da família, tios, irmã, etc., nem ficaram sabendo. Só notaram que eu estava mais quieto do que de costume. Mas colo de mãe cura, de verdade. Tive alguns episódios de pânico. A sensação de estar perdido sem estar, a sensação de abandono, de solidão é horrível. Nesses momentos tentava primeiro me acalmar, voltar a respirar e correr para o colo da minha mãe. Várias vezes cheguei em casa em prantos e a única coisa que me acalmava era o colo. Encostar a cabeça no colo dela me fazia lembrar que eu era diferente, antes da depressão, e que ao sair da piscina, eu ia voltar a ser eu mesmo.

Quanto ao ombro amigo, um amigo, que teve uma paciência brutal comigo, em uma das nossas caminhadas-conversas, me disse o seguinte: “Sérgio, agora você tá no fundo do poço e só você pode lhe tirar daí. E pra sair você vai ter que dar o primeiro passo. Não esquece que mover o pé, tirar ele do lugar já é um grande passo.” Daquele dia em diante consegui mover o pé e sair do lugar.

Para quem está deprimido ou se sentindo deprimido posso dizer: “caminhe, ande, mova-se. Não fique parado remoendo, ruminando problemas. Eu sei que é um saco, que é difícil. Mas mova-se, ande, caminhe, dance, faça qualquer coisa, mas a atividade física ajuda pra caramba. Se você tem cachorro, leve o cachorro para passear, nem que seja até a esquina. Se você tem filhos, leve eles ao parque.”

Aliás, essa sensação de que fomos abduzidos por uma espaçonave e que todos vão apontar na rua que temos um distúrbio é uma mentira! Às vezes as pessoas estão tão ocupadas com suas coisas que nem vão perceber se você está cagado ou deprimido. Então, vá pra rua mesmo deprimido, mesmo se sentindo o último. Durante minha depressão tive duas mudanças de emprego, com entrevistas e avaliações. Em nenhuma alguém se deu conta que eu esta deprimido. E consegui, eu saí! Não desanimei! Um pequeno passo faz uma grande diferença!”

*

 A seção Vozes é um espaço para o leitor do Sinapses. O objetivo é permitir que portadores de distúrbios mentais  possam compartilhar experiências, relatar como receberam o diagnóstico, falar sobre seus temores e desejos,  ajudar outras pessoas na compreensão do problema e mostrar como vivem (bem ou mal) os que têm e escondem sua doença, assim como os que as revelam. Veja aqui como participar

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