Crimes e insanidade mental

Claudia Belfort

18 de dezembro de 2009 | 21h12

Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com o Instituto Karolinska da Suécia sobre a relação crimes-distúrbios psiquiátricos comprova  que não se pode fazer genericamente uma relação de causalidade entre problemas mentais e violência. Fui atrás de informações sobre o tema por conta da repercussão de duas recentes associações de atos violentos com transtornos psiquiátricos. A de Massimo Tartaglia que agrediu o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, e a da brasileira Paula Oliveira que simulou ter sido vítima de um ataque xenófobo na Suíça. Os advogados de ambos atribuíram os atos a distúrbios mentais. Paula foi condenada na última quarta-feira ao pagamento de uma multa R$ 18 mil, além de mais R$ 4 mil em gastos com o processo. A  juíza do caso Nora Lichti-Aschwanden considerou ela tinha uma culpa reduzida, embora tenha ressaltado que a pena deveria servir como lição.

Parece óbvio que ser portador de uma doença mental não torna alguém necessariamente violento, mas na medida em que o argumento começa a ser usado, de forma correta ou não, em casos de grande repercussão há um risco de que essa associação deixe de ser episódica e torne-se generalizada. Se a questão saúde mental já é carregada de preconceito, imagine agregar mais esse.

A conclusão mais interessante a que os cientistas chegaram, segundo a psiquiatra forense Seena Fazel, da Universidade de Oxford, é que apenas 5,2% de todos os crimes violentos cometidos no período estudado foram de autoria de portadores de doenças mentais, ou seja, de cada 20 crimes, em 19 deles os autores era mentalmente sãos. Embora destaquem que o número pode ser subestimado, os pesquisadores reforçaram que não se pode estabelecer de forma ampla uma causalidade. Foram alvo de análise também assassinatos e tentativas de assassinatos, com 18%  de relação positiva com insanidade mental; incêndios, com 15,7%; arrombamentos, 7%, crimes sexuais, 5%; roubos, 3%. Os pesquisadores analisaram dados de atos criminosos praticados na Suécia (porque lá eles classificam os de autoria de doentes mentais) entre os anos 1988 e 2000.

Números sozinhos podem não ser capazes de alterar percepções ou estigmas, mas pelo menos dão argumentos mais objetivos.

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