Cuidado para não se perder

Claudia Belfort

20 de abril de 2010 | 20h10

Há uns dois meses houve um debate entre leitores aqui no blog sobre os efeitos do uso de medicamentos no comportamento dos pacientes com distúrbios mentais. Alguns defendiam que pessoas sob esse tipo de terapia perdem o controle sobre si, têm suas atitudes ditadas por remédios e  não pela própria essência. Essa discussão ficou bastante tempo na minha cabeça.

Podemos controlar apenas parte da nossa vida, pensava eu a caminho do jornal hoje. Tudo bem, essa parte é fundamental, do contrário seríamos como birutas à mercê do vento, mas esperar ter controle sobre tudo é tarefa impossível. Algumas horas atrás peguei um táxi perto de casa. Acreditava nunca ter visto o motorista até me dizer que quando eu acenei ele já ligou o ar condicionado para em seguida desandar a falar que nunca mais havia me visto e tal. O sujeito sabia onde eu morava, para onde eu mudaria, quem era o proprietário anterior do meu apartamento e até o nome do síndico do prédio.  

Que controle tenho sobre essas informações?, pensei. Estico o braço no meio da rua, entro num táxi cujo motorista tem conhecimento de tantos detalhes de minha vida e eu nem faço ideia do seu nome, de fato sequer lembro o modelo do carro. Não perguntei como ele soube de tudo aquilo, respondi com vogais e mergulhei no caderno de esportes do Jornal da Tarde, que deixei com ele ao descer – melhor ocupá-lo com a convocação ou não de Neymar para a seleção a deixá-lo elucubrando sobre minha vida.

Essa prosopopeia toda é só para dizer que acho uma ilusão defender que tomar remédios é abandonar o próprio eu. Ficar doente então também seria, não me convence o argumento de não se medicar para não se perder. Já tem um pedaço nosso perdido por aí.  Já existe um outro você, ou eu, à solta e sobre esse não temos um controle absoluto, ele é uma projeção do que eu mostro e do que os outros interpretam, é um punhado de informações que se dissipa por ondas sonoras, por letrinhas pretas sobre tela branca, por conversa de taxista.  Podemos até tentar criar um personagem à nossa imagem e semelhança, mas saber por onde ela trafega  e com que nível de detalhamento é difícil.  Somos  mistério por dentro e percepção lá fora, assim não dá para querer se livrar do incontrolável, do desconhecido. Eles estão aí, ponto. E isso é o divertido de viver (não de enlouquecer), mesmo sob medicamentos.

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