Da enxaqueca ao transtorno autístico

Claudia Belfort

24 de fevereiro de 2010 | 22h43

 Relato de André sobre seu transtorno de espectro autista para a seção Vozes… (veja aqui como participar)

 Transtorno autístico desapercebido por 30 anos

“Sempre me achei uma pessoa normal. Apenas tinha dores de cabeça frequentes e ideias diferentes, um jeito de pensar que questionava o que a maioria das pessoas acreditava. No colégio, professores me incentivaram a participar de competições científicas e, para minha surpresa, sempre estive entre os primeiros colocados, até no vestibular, mesmo dormindo durante a maioria das aulas. Consegui um bom emprego, que me permitiu conseguir outro melhor ainda.

No novo emprego passei a não conseguir fazer coisas simples. A pressão por entregar um projeto não era mais suficiente para me motivar e forçar minha concentração. Passava o dia com muito sono, mesmo com muitas doses de café. As dores de cabeça eram mais debilitantes.

Procurei um neurologista. Diagnóstico: enxaqueca. Notei que ao tomar o remédio para crises de enxaqueca, ficava mais produtivo por três dias. Entretanto, nenhuma solução para o sono.

Acabei visitando um psiquiatra. Diagnóstico: depressão. Com fluoxetina, melhorei meu desempenho e motivação, salvando meu emprego, à custa de dores de cabeça mais frequentes.

Procurei outro psiquiatra, que não viu depressão no meu quadro, e trocou a medicação para um estimulante. As dores de cabeça diminuíram, a letargia sumiu, a concentração melhorou. Meu humor continuava instável, com semanas de melancolia. O médico passou então a procurar a causa dos distúrbios.

Em alguns meses, um semi-diagnóstico: “Seus sintomas apresentam padrão similar aos de um grupo conhecido como espectro autístico”. Superados o choque e o preconceito, continuei a terapia e passei a estudar o assunto a fundo, como um bom aspie.

Apesar de minhas deficiências de sociabilidade não serem severas o suficiente para caracterizar Síndrome de Asperger, recentes descobertas sobre o espectro autístico ajudaram a explicar muitos dos meus problemas. Níveis baixos e irregulares de cortisona, o hormônio do estresse, explicam a sonolência e as dificuldades de concentração, piorados ao me mudar de São Paulo para o novo emprego. Hipersensibilidade explica parte das dores de cabeça. Necessidade constante de estímulos, na forma de desafios intelectuais, explica o desânimo causado por um trabalho intelectual repetitivo. Agora já vejo um caminho para a melhora.”

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A seção Vozes é um espaço para o leitor. O objetivo é permitir que portadores de distúrbios mentais  possam compartilhar experiências, relatar como receberam o diagnóstico, falar sobre seus temores e desejos,  ajudar outras pessoas na compreensão do problema e mostrar como vivem (bem ou mal) os que têm e escondem sua doença, assim como os que as revelam. Veja aqui como participar

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As informações divulgadas neste blog não substituem aconselhamento profissional. Antes de tomar qualquer decisão, procure um médico.

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