Estigma inabalável

Claudia Belfort

08 de fevereiro de 2010 | 19h31

Você acha que o preconceito contra as pessoas que se revelam portadoras de um distúrbio mental vem diminuindo? Pergunto sua percepção de um modo geral. A minha impressão, é só uma impressão, é que já se aceita falar sobre esses transtornos, mas quando nos referimos a alguém que sofre de depressão, esquizofrenia, TOC e afins o tom ainda é de um sussurro.  Não é comum falar-se abertamente “João não bebe porque é bipolar” como se diz sem constrangimento que “Ana Lúcia não comerá o bolo porque tem diabetes”.

Trouxe o tema por conta de uma recente pesquisa feita nos Estados Unidos pelas universidades da Indiana e da Carolina do Norte sobre o estigma envolvendo os transtornos psíquicos. Nos EUA, a veiculação de medicamentos para distúrbios mentais, especialmente para depressão, é permitida desde 1997, por isso os sociólogos que lideraram a investigação supunham que a disseminação de informação, feita via os anúncios, ajudaria a população a deixar de ver doença mental como fraqueza moral ou motivo de vergonha para encará-la como algo que pode ser tratado. Mas, os pesquisadores chegaram à conclusão que nada mudou, o estigma continua inabalável mesmo diante de informações mais precisas sobre os distúrbios.

O problema, segundo os especialistas, é que esse tipo de reação negativa da sociedade afeta profundamente o modo como os pacientes e suas famílias tratam a questão, além de contribuir para que muitos portadores de distúrbios psíquicos temam procurar ajuda médica por medo de serem discriminados.

Ao ler sobre a pesquisa, lembrei do filme Amantes. O protagonista, Leonard (Joaquin Phoenix) é um bipolar que logo na primeira cena tenta se matar atirando-se de um píer em Brighton Beach. O filme é lindo. Além da história, me marcou muito o modo como a família, a namorada, o futuro sogro olhavam para Leonard. Sempre com um misto de pena e preocupação, às vezes até com um pouco de pânico. Perguntei a um amigo bipolar o que achou e ele me disse: é exatamente assim que me olham em casa.

*

As informações divulgadas neste blog não substituem aconselhamento profissional. Antes de tomar qualquer decisão, procure um médico.