Gastava com mulheres, noitadas, comprava tudo…

Claudia Belfort

05 de fevereiro de 2010 | 18h56

Relato de Gildo sobre sua bipolaridade para a seção Vozes… (veja aqui como participar)

“Tenho transtorno bipolar afetivo desde 1995, que só foi diagnosticado em 2002. Passei por diversas crises. A primeira em 1995 quando destruí minha casa, subi na laje do meu sobrado quebrei a caixa d’água, fui parar no hospital. Fiquei um ano em stand bye. Nessa crise ouvia vozes dizendo que estava rico entre outras coisas. 

A segunda crise aconteceu dois anos depois. Fui trabalhar, abandonei o carro em uma avenida. Peguei um taxi e fui à sede de um grande banco na Paulista. Consegui entrar e chegar até a sala do então presidente que me olhou com seus óculos fundo de garrafa sem entender nada. A segurança me abordou, queria saber como tinha entrado e o que queria, falei apenas que tinha um currículo verbal para entregar.

A terceira foi no ano 2000. Achei que a Globo queria me contratar, deixei o carro da minha esposa no estacionamento do aeroporto e com apenas o cartão do estacionamento consegui embarcar para o Rio. Chegando lá sem dinheiro e nem conhecidos peguei um taxi até o Projac, como não tinha dinheiro fomos até um shopping no Recreio dos Bandeirantes para tentar sacar dinheiro sem sucesso. O taxista acabou desistindo e me deixou lá. Passei a noite andando de lotação e quando o dia amanheceu estava em frente a uma loja de veículos onde entrei usando um nome que me veio na cabeça. O gerente percebeu minha confusão e conseguiu ligar para minha família em São Paulo, que me resgatou. Fiquei um mês internado no Bezerra de Menezes. 

 O último episódio foi em 2005. Parei de tomar os medicamentos e comecei a beber, gastar por conta até sujar meu nome. Gastava com mulheres, noitadas, comprava tudo o que gostava e não podia, desde carros até coisas que não tinham o menor sentido. Minha família achou melhor me internar, mas fugi depois de um mês.

 Quando tive meu primeiro episódio já estava separado da minha primeira esposa. A segunda enfrentou três crises, sempre me apoiando, mas não resistiu e foi embora. Agora estou no meu terceiro relacionamento. Ela presenciou minha última crise me apoiou e me apoia até, também tenho um filho de 19 anos.

Depois da internação de 2005, passei por outros psiquiatras. Hoje estou estabilizado e trabalhando. Tomo 11 comprimidos por dia de diversos remédios (lítio, carbamazepina, depakene, haloperidol), a cada dois meses passo por uma consulta com psiquiátrica, não posso beber nada e nem tampouco me privar do sono.”

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A seção Vozes é um espaço para o leitor. O objetivo é permitir que portadores de distúrbios mentais  possam compartilhar experiências, relatar como receberam o diagnóstico, falar sobre seus temores e desejos,  ajudar outras pessoas na compreensão do problema e mostrar como vivem (bem ou mal) os que têm e escondem sua doença, assim como os que as revelam. Veja aqui como participar

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