“Meu valor não está no meu peso”

Claudia Belfort

21 Janeiro 2010 | 18h40

Este é o relato de Viviane (nome fictício) sobre seu transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP), bem oportuno para refletirmos nesta semana em que reapareceram as modelos magérrimas na SPFW. 

O testemunho faz parte da seção Vozes (veja aqui como participar)

Venho de uma família de obesos mórbidos e depressivos. Minha mãe sempre manteve o peso: foi anoréxica durante a adolescência e bulímica a partir da idade adulta. Engravidou de mim, porque o efeito da pílula era anulado pelos laxantes que ela ingeria diariamente.

Durante minha adolescência, ela se tratava no HC e eu acompanhei todo o sofrimento dela e de tantas outras mulheres. Aí, passei a me preocupar com meu peso (embora estivesse normal na ocasião), e emagreci com uma dieta restritiva. Sentia-me mais amada assim. Esse foi o início de um ciclo que já dura anos.

No auge do TCAP (transtorno da compulsão alimentar periódica), seguia um limite de calorias e uma alimentação impecável perto de outras pessoas. Após o trabalho, comprava guloseimas (salgadinhos, chocolates, biscoitos recheados, etc.), entrava no carro e, no trajeto até em casa, mastigava até ficar com dor no maxilar. Comia 3000 calorias em uma hora. Tinha falta de ar se não seguisse esse ritual. Então, descartava as embalagens, entrava em casa e jantava normalmente com minha família, mas sofria com uma angústia cortante, uma sensação de impotência, nojo, vergonha, humilhação, fracasso, desespero e aflição. Ia dormir chorando quase todas as noites.

Por falta de coragem, nunca induzi o vômito nem tomei laxantes, mas confesso que ficava alegre com algum surto repentino de diarréia…

Em 2009, finalmente, percebi que esse comportamento não era natural. Além do efeito sanfona, eu vivia em função dos meus quilinhos a mais, ou melhor, eu deixava de viver por causa deles: deixava de sair, não queria rever amigos, fugia da minha família, me recusava a namorar, não comprava roupas. Então procurei ajuda. Comecei terapia e tratamento especializado.

Resgatei a noção de que meu valor não está no meu peso, minha auto-estima aumentou e voltei a sentir prazer com outras coisas além da comida. Estou medicada. A compulsão diminuiu e estou animada a voltar a praticar exercícios. Emagrecer não é mais prioridade. Estou feliz, confiante e tenho certeza de que, com fé em Deus, e com o tratamento, em breve estarei ainda melhor!

(Leia mais sobre TCAP no site na Unifesp)

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