No balcão de um café…

Claudia Belfort

29 de dezembro de 2009 | 07h52

Ouvi no balcão de um café um diálogo entre um homem alto, alto mesmo, um cara de quase 1,90m, encorpado,  seguro de si, e um colega, no qual o homem, belo diga-se, relatava um incômodo físico qualquer. Dizia estar tomando um conhecido anti-inflamatório e assegurava que logo estaria bem. Acrescentou algo mais que não entendi, e logo seu interlocutor questionou se não era o caso de procurar um médico, quem sabe tomar antidepressivos.

Tentei permanecer invisível para captar todas as sílabas da conversa (eu sei, parece bisbilhotice, mas o lugar era público) que rapidamente terminou assim: “eu não preciso de antidepressivos, não tenho esses problemas, isso não me acomete”, afirmou o homenzarrão com uma convicção invejável.

Reparei que ele não nominou nenhum tipo de transtorno, não falou em depressão, em pânico, em bipolaridade. Usou “esses”, “isso”, assim como se fazia com câncer anos atrás, para se referir a sabe-se lá que mal lhe ocorresse no momento. Talvez  ele temesse se aproximar do real motivo de sua dor, talvez não quisesse tratar do tema na presença de uma terceira pessoa, dado que fracassei na minha tentativa de ficar invisível e deixei nossos olhos se cruzarem por um milésimo de segundo.

Mas o que despertou minha curiosidade foi a observação do interlocutor, por que ele contrapôs antidepressivo a anti-inflamatório? Ou era ele muito sensível ou tinha conhecimento das intricadas relações dos processos inflamatórios com disfunções mentais. Elas existem e são complexas. Ambos, a inflamação e um transtorno de ordem psíquica, podem acentuar a gravidade um do outro. “Os transtornos do humor podem piorar a evolução de processos inflamatórios, e substâncias já presentes no nosso corpo e que pioram inflamação também podem agravar uma depressão”, explicou Dr. Teng Chei Tung, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo e autor do livro Enigma Bipolar. Segundo ele, doenças crônicas que estão relacionadas com inflamação, como as arterioscleróticas ou diabetes estão entre as quem têm maiores taxas de depressão. “Uma teoria sugere que a depressão poderia ser o resultado da ação de substâncias inflamatórias no cérebro”, disse.

Outra importante relação entre dor física e distúrbios mentais é a fibromialgia. “A primeira associação é com a depressão”, contou-me o psiquiatra   Luis Felipe de Oliveira Costa, do Instituto de Psiquiatria da USP, unidade de transtornos de humor. “Ainda não se sabe se por algum tipo de desordem serotonérgica (diminuição ou captação reduzida de serotonina) ou o contrário. Mas é fato que uma boa parte dos sintomas de um episódio depressivo tem relação com sintomas físicos, sejam cansaço, dor no corpo, desânimo e alguns deles aparecem também nas fases eufóricas do transtorno bipolar, completou Dr. Teng.

De qualquer forma, os dois médicos fazem a mesma recomendação: quando um tratamento para um sofrimento físico qualquer não funciona é importante investigar a possibilidade de quadros depressivos ou ansiosos antes de dizer com tanta assertividade que temos apenas uma inflamação.

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