Novos transtornos mentais

Claudia Belfort

18 de fevereiro de 2010 | 21h04

A “enciclopédia” da psiquiatria, onde se encontram as definições que levam os médicos a concluir se somos normais ou não, excêntricos ou doentes, acelerados ou bipolares ou se aquela melancolia é uma depressão ou uma tristeza circunstancial, está diante de uma junta médica. A Associação Americana de Psiquiatria (APA) apresentou na semana passada o esboço do DSM-V, sigla em português para Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, manual de referência para diagnóstico de transtornos mentais, a aguardada revisão da quarta edição publicada em 1994.

O DSM-IV classifica 297 distúrbios psíquicos, quase três vezes mais que o número da primeira versão, o DSM-I de 1952, que apresentou 106 transtornos. Para esta quinta edição, os pesquisadores propõem novos diagnósticos e eliminam outros. Passariam a ser classificados o transtorno do comer compulsivo, transtorno da hipersexualidade e a dependência de jogos de azar.  Em entrevista ao jornal americano The New York Times, o professor de psiquiatria da Universidade Columbia, que editou a quarta versão do DSM, mas não está envolvido na quinta, alertou que alterações no manual podem ter grandes conseqüências no estigma que tais tipos de transtornos já carregam. “Quanto mais doenças você inclui nele, mais rótulos as pessoas ganham”, afirmou.

Já a adição de um  transtorno infantil, que receberia a denominação de desregulação do humor com disforia, tem sido vista com bons olhos. A nova doença visa a evitar que crianças agressivas, irritáveis recebam equivocadamente o diagnóstico de transtorno bipolar e consequentemente a prescrição de antipsicóticos que produzem graves efeitos colaterais, incluindo alterações no metabolismo.

Uma das mudanças mais polêmicas, no entanto, é a eliminação do  diagnóstico da síndrome de asperger (uma dificuldade de interação social sem retardo no desenvolvimento cognitivo)  que passaria a ser diagnosticada como transtorno de espectro autista. A proposta motivou um grande debate entre especialistas. Tony Attwood, psicólogo australiano e autor de “O Guia Completo para a Síndrome de Asperger (The Complete Guide to Asperger’s Syndrome” (Jessica Kingsley Publishers, 2006), por exemplo, argumenta que o fim dessa síndrome dificultará o tratamento dos portadores do distúrbio. Segundo ele, ao contrário do autismo, a asperger não é tão estigmatizada, e isso levaria alguns pacientes a recusarem o diagnóstico de transtorno do espectro autista. Outros defendem que o autismo ainda é muito desconhecido e que não há como fazer subdivisões do diagnóstico.

O DSM-V, se aprovado, deve ser lançado em 2013, mas o público pode ler e comentar o rascunho disponível no site da APA. As alterações para a quinta edição vêm sendo trabalhadas desde 1999. 

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