O risco da depressão entre idosos

Claudia Belfort

18 de maio de 2010 | 21h11

A avó de um amigo meu decidiu por conta própria morar numa espécie de comunidade de idosos. Faz coisa de dois anos. Não era um daqueles asilos que povoam nossa mente quando falamos em abrigar anciões. Era uma chácara, com muitas árvores, área de ginástica, de música, oficinas. Tinha um quarto só para ela, sem cozinha, sem sala, mas era só dela, e fez um amigão. Vinte anos mais jovem que a avó do meu amigo, ela já próxima dos 80, o senhor deu a ela um brilho no olhar, uma fala carinhosa que a família inteira pensou que havia tempo a senhora não parecia tão feliz.

Aquela felicidade, provou-se depois, era melancólica. A enorme estrutura da casa fazia com que ela se sentisse presa, mordomias como ter as roupas lavadas, as três refeições prontas, sessões de cinema deram a ela uma sensação de perda de independência, de não poder mais escolher. A senhora ficou deprimida e voltou a morar com uma cuidadora em seu apartamento cheio de escolhas.

Lembrei essa história por conta de um artigo que li recentemente sobre o suicídio entre idosos.  Nos Estados Unidos, 14,2% dos casos ocorrem em pessoas acima de 65 anos. A ida a um abrigo ou comunidade pode não ter relação direta com o suicídio na população nessa faixa etária, mas a mudança ambiente, de status social, de perda de função provoca medo, ansiedade e sensação de desesperança podem colaborar para o desenvolvimento de um quadro de depressão. Alie isso à falta de capacidade de identificação de doenças de humor, depressão, dependência química por parte de familiares e funcionários dessas casas e tem-se um sério fator de risco.

Os pesquisadores da Universidade de Rochester, EUA, listaram uma série de procedimentos que casas de idosos podem adotar para prevenir suicídios, como disseminar informações sobre tratamentos para distúrbios mentais, preparar a família, funcionários e outros idosos residentes a identificar quando um ancião precisa de auxílio psiquiátrico.

Mas será que a gente pensa que idosos podem desenvolver uma depressão a ponto de cometer suicídio? Como não é comum, pode ser difícil crer que sim.  Além do mais, eles não têm mais problemas com trabalho, já criaram os filhos, já amaram. Bem o caso da avó do meu amigo. Independente, financeiramente autônoma, lúcida. Ficou deprimida e ninguém viu. Ela intuitivamente percebeu-se num caminho onde não queria estar e agiu. Na família, antes disso, todos acreditavam que estava ótima.

Com a idade a gente até aprende a controlar um mau humor, a sorrir diante da visita de um parente, mesmo querendo se acabar de chorar, a experiência, no entanto, demonstra essa pesquisa, não cura sozinha um distúrbio mental.

Ah, a avó do meu amigo ainda mora com uma cuidadora no seu apartamento. Está fisicamente bem.

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