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A higienização étnica no Rio de Janeiro

Da redação

12 de agosto de 2016 | 18h28

Sérgio Mauro*

No capítulo intitulado ‘O Vergalho’, das Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador-protagonista Brás Cubas assiste a um inusitado espetáculo, ao menos para a época em que se passa a trama do romance: um negro, seu ex-escravo, açoita furiosamente outro, acusando-o de bêbado e de fujão. Sob a ótica dos nossos tempos, diríamos que se trata de um típico episódio de bullying, em que a vítima de outrora se vinga hoje das pancadas recebidas, batendo em outra pobre vítima, repetindo um ciclo sem fim. Machado estava, na verdade, com a fina ironia que lhe era peculiar, dissecando a triste alma humana, em que a crueldade é geralmente demonstração de força e de poder. A passagem lembra ainda a canção de Geraldo Vandré, nos anos 60, no contexto da ditadura militar, em que se prega a ‘volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar’. No caso de Vandré, o escravo Prudêncio deveria vingar todas as chicotadas recebidas pelos escravos brasileiros do passado, mas, na verdade, simbolicamente, a canção remetia aos desmandos dos ditadores militares, que ‘açoitavam’ as liberdades democráticas.
Pois bem, o mais recente episódio da novela olímpica que se desenrola no Rio diz respeito a uma suposta ‘limpeza’ dos mendigos que dormem nas ruas da Cidade Maravilhosa. Se realmente comprovado, não seria a primeira vez. Basta lembrar as denúncias feitas pela imprensa no início dos anos 60 relacionadas aos supostos sequestros e lançamentos de mendigos nos rios da cidade, provavelmente perpetrados por ordem do então prefeito Carlos Lacerda, com o intuito de causar boa impressão para a rainha da Inglaterra, que tinha programado uma visita ao Rio.
Na raiz dessas tentativas de ‘limpeza’ étnica, mais do que supostas injustiças do ‘malvado’ sistema capitalista (até agora, o único que gera riquezas e progresso, apesar das injustiças sociais e da formação de núcleos de excluídos, como consequência inevitável), está a incapacidade de lidar com o diferente, com o ‘intruso’ que ousa viver de uma maneira diferente da nossa. Para se sentir verdadeiramente liberto, o escravo Prudêncio precisava escravizar outra pessoa, em condição social inferior à sua, não lhe bastando apenas a alforria proporcionada pelo seu ex-dono. Os mendigos, enfim, ‘devem’ existir para que nós nos sintamos realmente bem-sucedidos na escala social, ou para que nós nos consolemos, caso não tenhamos acumulado tanto dinheiro assim, pois ao menos não precisamos dormir ao relento, nem pedir comida batendo nas portas dos outros.
No entanto, o triste espetáculo de multidões maltrapilhas nas ruas, ao mesmo tempo que consola também incomoda, sobretudo as autoridades públicas que, incapazes de admitir o fracasso na administração das cidades e na assistência aos desvalidos, preferem varrer a sujeira para baixo do tapete, ao menos temporariamente, quando os olhares do mundo estão voltados para cá, para o espetáculo dos esportes que, como único legado, talvez nos proporcionem algumas medalhas, quiçá de ouro, para nos servir de consolo.
Machado de Assis, o mais refinado e sagaz analista das chagas sociais brasileiras, politicamente conservador, mas iluminado e perspicaz, no episódio do escravo mostra também a repentina piedade do patriarca Brás Cubas, que gentilmente faz cessar a crueldade, solicitando ao seu ex-escravo que deixe de açoitar o outro. Na verdade, ele se lembra do tratamento desumano que destinava aos seus escravos, na suposta inocência dos seus verdes anos. O narrador Brás Cubas sai do episódio com a consciência em paz, apesar da memória da sua infância de patrãozinho desapiedado. Passados os jogos olímpicos, será que as autoridades municipais do Rio sairão de cabeça erguida e com ‘cara de paisagem’, assim como aconteceu no passado com Carlos Lacerda? Espero que não, mas a releitura do capítulo citado das Memórias Póstumas, à luz da situação atual, não deixa margem para muitas esperanças.

* Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara

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