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A irônica semântica da política nacional

Da redação

13 de junho de 2016 | 15h30

Isabelle Anchieta*

Se uma figura de linguagem pudesse ser usada para definir a política no Brasil, ela certamente seria a ironia. Aqui o (já ex-) Ministro da Transparência é nomeado para obscurecer investigações da Justiça. A ‘defesa’ da democracia é lema de simpatizantes de um partido sinônimo de atos ‘nada republicanos’. O líder, que se diz ‘surpreso’ com o ódio, é, ele mesmo, o maior incentivador da violência no debate político. Sem falar no pleonasmo do ‘golpe’ que conseguiu, pela redundância, significar que o desejo da maioria da população (e não de uma minoria) fosse compreendido como um ato antidemocrático. Mas ninguém escapa à ironia. O líder da oposição – que deveria ser a antítese do mal feito – ao que tudo indica será ‘o primeiro a ser comido’ pelo banquete antropofágico orquestrado pela Lava Jato. Eis que todas as afirmações são exatamente o contrário do que se pensa e dos fatos. Seriam ridículas, não fossem tomadas a sério por um grupo de pessoas que as repetem acriticamente.
E o dicionário de ironias não para por aí. Políticos: ao invés de significar uma pessoa à serviço da sociedade, passou a ser sinônimo de desonestidade, de alguém que não fala a verdade e que sabe ‘negociar’. Se eles estão a serviço de algo, é de si mesmos e de suas famílias. Não fosse esse verbete apenas superado por outro: democracia. Fundada na máxima roussoniana de que “todo poder emana do povo”, ela talvez seja a mais irônica das ironias da política nacional. No país onde a população pode participar do processo político somente via eleições; que, em 28 anos, formulamos e aprovamos apenas 4 leis de iniciativa popular (dificultadas pela burocracia e exigências da lei); que foi convocada para dois plebiscitos e um referendo e que não aprovou no Congresso os projetos de lei autorizando o recall ou voto revogativo de mandatos dos representantes; onde a maioria não pode decidir a destinação dos recursos; as prioridades (se a Copa ou mais escolas); ou mesmo definir o salário e os benefícios dos nossos empregados (representantes)?! Todo poder emana do povo?! Faça-me rir….
Mas eis que, em meio a tantas ironias, alguém resolve falar sério. Dá real correspondência às palavras. A Lava Jato é a melhor antítese da política nacional. Delações premiadas, gravações de conversas privadas ofereceram o paradoxo que necessitávamos para romper a ironia. Escutamos pela primeira vez e com todas as palavras os políticos dizerem (o que desconfiávamos que diziam), mas que nunca o fizeram em público. É a confissão dos crimes inconfessáveis. É o fim da hipocrisia. São as palavras ganhando o seu lugar. Crime é crime. Corrupção não é jeitinho. Propina e caixa dois dão cadeia. E, agora, bandido que rouba muito não vira mais ministro, mas pode ir para a prisão.
Eis que a Lava Jato faz desse ‘ensurdecedor silencio’ o mais delicioso emprego da palavra justiça engasgada há séculos na paciência nacional.

* Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP, professora da PUC, recebeu prêmio internacional pela ISA/UNESCO como Jovem Socióloga e distinção acadêmica pela USP. Facebook: Isabelle Anchieta (figura pública). Email: isabelleanchieta@gmail.com

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