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A moda das invasões e o desejo de visibilidade

Da redação

19 de junho de 2016 | 16h36

Sérgio Mauro*

A invasão da Reitoria da USP, na semana passada, insere-se na longa lista de invasões dos últimos anos perpetradas por estudantes de todos os níveis, do ensino médio ao superior, em Assembleias Legislativas ou Reitorias em todo o País. Tornou-se moda, portanto, renunciar ao diálogo e invadir pura e simplesmente, seja como forma de coação sobre quem deve deliberar, seja para atrair as forças policiais e, consequentemente, a mídia, dando maior ‘visibilidade’ (palavrinha mágica!) ao movimento. Trata-se, portanto, não somente de uma forma de reivindicação de direitos de todos os tipos, inclusive corporativistas, mas também de uma espécie de direito a ser ‘visível’, ocupando, na medida do possível, a mídia e as tantas redes sociais da internet. As invasões pertencem a um quadro preocupante da sociedade brasileira atual que assiste à volta de antigas polarizações e oposições ferrenhas: defensores da causa operária x conservadores burgueses, petistas x ‘coxinhas’ (seja lá qual for o significado desta palavra), homossexuais x homófobos, e por aí afora. Algumas destas contendas já foram há muito superadas em países mais desenvolvidos, não porque tenham sido resolvidas, mas por terem perdido o sentido num mundo não mais maniqueísticamente dividido entre capitalistas e comunistas, ou entre filo-americanos e filo-soviéticos ou filo-cubanos. Por que, então, retornaram com toda a força no Brasil?
As respostas devem ser procuradas na imaturidade que perpassa quase todos os níveis de relacionamentos sociopolíticos predominantes no Brasil. Tanto a Reitoria ou a Secretaria de Ensino não sabem lidar com as reivindicações estudantis, como as associações de estudantes não sabem como fazer valer os próprios direitos de maneira eficaz e veemente, mas pacífica, na medida do possível. A imaturidade e a irresponsabilidade estão tanto em que administra universidades e escolas públicas, simplesmente alegando não ter mais verbas como tinha há poucos anos, quanto nos sindicatos e associações de professores (e/ou estudantes) que exigem reajustes salariais ou melhorias de todos os tipos de quem por repetidas vezes diz, irresponsavelmente, não ter mais recursos. Desse modo, não há mais diálogo ou os debates e discussões se protraem infinitamente, porque nenhuma das partes é capaz de abrir mão das alegações iniciais, esperando apenas que o ‘inimigo’ perca paulatinamente forças e apoios (entre os quais o da opinião popular e o da mídia em geral) até que ‘se renda’, conquistando ou não o que esperava.
Nesse quadro de ausência de diálogo ou de diálogo sem objetividade, em que se sucedem reuniões que não visam a decidir nada de concreto, há espaço para a exasperação, sobretudo a dos mais jovens, naturalmente propensos a bravatas e a ações de impacto que, devido a sua natureza agressiva, quase sempre geram a reação de políticos despreparados que não hesitam em empregar a força para, ‘democraticamente’, restabelecer a ordem. Mas qual ordem e qual eterna paciência pode ser exigida de quem vê o seu salário diminuir mensalmente ou de quem é obrigado a frequentar escolas públicas que primam pela ineficiência e pelo despreparo da maioria dos professores?
À guisa de conclusão, cabe retomar a questão da visibilidade a que me referi no início. O que se quer, salvo honrosas exceções, é deixar de ser ‘invisível’, e não apenas por parte dos anônimos estudantes e professores, mas também do lado de políticos e governantes que, ao adotarem medidas policiais repressivas, ganham notoriedade entre os que defendem a linha dura (outra das polarizações do Brasil atual). É a visibilidade a todo custo que, assim como a do usuário compulsivo de Facebook, Instagram e quejandos, constitui o objetivo único dos lados que entram em choque, tanto por parte de quem detém o poder, como por parte dos que são subalternos. Dessa maneira, a discussão de ideias ou não existe ou logo se esgota.
A atual crise das universidades paulistas, a meu ver, tem origem num perigoso desejo de visibilidade a qualquer preço que vigorou nos tempos de ‘vacas gordas’ que, enfim, não eram tão gordas como se esperava. A transmissão de cultura pode ser feita com um punhado de livros, com um grupo de jovens apaixonados e entusiastas e com professores preparados e igualmente abnegados. Mesmo as áreas técnicas, que demandam laboratórios e estruturas mais complexas do que as ciências humanas, nada produzem se não houver paixão e dedicação, mais do que meros recursos financeiros. No entanto, aos que desejam a visibilidade a todo custo, interessa dilapidar recursos públicos com inaugurações de anfiteatros ou laboratórios ‘modelos’, ou com a larga e irresponsável concessão de bolsas ou de incentivos que, em curto prazo tendem a onerar as finanças a tal ponto que não é mais possível conceder nem mesmo reajustes salariais ou reposição de vagas. Trata-se de um processo que se repete, pela minha experiência, há pelo menos trinta anos, por exemplo, na USP, na Unesp e na Unicamp.
Não cabe, portanto, apenas indagar quem vai pagar a conta do prejuízo atual, nas universidades públicas e nas instituições de ensino público em geral, mas é preciso urgentemente impedir que o crônico processo de diálogo entre surdos continue a vigorar, em que cada parte deseja apenas tornar-se ‘visível’, custe o que custar.

* Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara

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