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Brexit: uma nova crise?

Da redação

27 de junho de 2016 | 18h33

João Ricardo Costa Filho*

Embora algumas pesquisas já apontassem a possibilidade da escolha pela saída do Reino Unido da União Europeia, a verdade é que a maioria dos agentes acreditou (torceu?) para que a escolha fosse na direção contrária. O mercado financeiro, em especial, ‘dormiu’ apostando na permanência e ‘acordou’ desesperado. Bolsas de valores mundo afora registraram perdas expressivas, sem falar na busca por segurança que fez com que moedas de vários países perdessem valor no momento que os investidores buscaram o dólar. A libra caiu e continua em queda livre.
A magnitude do impacto econômico da decisão ainda é imprevisível. Tudo dependerá das condições. Para um país sair da União Europeia, o mesmo deve utilizar o artigo 50 do Tratado de Lisboa, a partir do qual os demais países irão impor as condições da saída. Com medo de um movimento mais generalizado, o Reino Unido deverá servir de exemplo e as condições não serão brandas. De qualquer forma, o caos no mercado financeiro levanta a seguinte questão: poderá haver uma nova crise em função dessa decisão? Improvável.
A literatura de crises financeiras traz diversos exemplos de situações que atingiram rápida e negativamente diversas economias pelos mais distintos motivos. Na década de 1980, os países latino-americanos não conseguiram mais financiar seus déficits em conta corrente com capital estrangeiro, e a dívida acumulada em moeda estrangeira ficou impagável com a depreciação cambial. O Reino Unido não tem esse problema, já que não sofre do que a literatura econômica chama de ‘pecado original’, isto é, a incapacidade de algumas economias em emitir dívida na sua própria moeda para investidores estrangeiros.
A depreciação da libra traz lembranças de 1992 e do ataque especulativo à mesma. A semelhança para por aí. À época, a região vislumbrava o que mais tarde seria a zona do euro e, portanto, havia o interesse do Banco da Inglaterra em defender a estabilidade da mesma (até quando foi possível). Hoje, com o regime de câmbio flutuante, a depreciação cambial servirá como colchão para absorver o impacto negativo nas decisões de consumo e investimento, evitando uma maior queda no PIB no curto prazo.
Pós a maior crise financeira desde a Grande Depressão, os bancos não somente tiveram um verdadeiro teste de solvência, como houve uma maior preocupação com o mesmo. Embora complexos instrumentos financeiros tenham transmitido a crise financeira para o outro lado do Atlântico, é possível imaginar que os bancos que se mostraram resilientes ao choque e foram fortalecendo as suas posições desde 2008 não irão estimular uma corrida bancária.
Em suma, no curto prazo, a não ser que eventos de ordem (geo) política sejam desencadeados em função da escolha, dificilmente uma nova crise será gestada. A capacidade de crescimento do Reino Unido, da Europa e do mundo, no entanto, será menor no médio e longo prazo. Com uma China que desacelera, os EUA com uma frágil recuperação e a Europa que teima em flertar com a dinâmica depressiva da deflação dos anos 30, tudo o que o mundo não precisava era dessa decisão.

* João Ricardo Costa Filho é professor da Faculdade de Economia da FAAP e do curso ‘A economia das crises financeiras‘, com início em agosto

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