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Há motivos para comemorar o Dia do Professor?

Da redação

14 Outubro 2016 | 20h31

Sérgio Mauro*

Entre todas as profissões de nível superior, no Brasil e no mundo, em países desenvolvidos ou não, o ofício de ensinar algo a alguém, seja uma atividade artesanal ou a coordenação de um projeto de mapeamento genético, é frequentemente objeto de descaso ou até de desprezo por parte da opinião pública e de seus representantes na cúpula da política. Evidentemente, entre os que ensinam, isto é, entre os que comumente chamamos de professores, docentes ou ‘ensinadores’, há também hierarquias, assim como ocorre entre os clérigos. Goza de reputação e altos salários, por exemplo, o professor universitário que, nos países mais ricos, faz o jogo da indústria privada e do poder central. Para os outros, restam as migalhas.
Na raiz de todos os males que afligem a categoria está a instituição do ensino público e universal, se não me engano, obra e graça da classe burguesa que ascendeu ao poder após a Revolução Francesa, há mais de dois séculos. É evidente que no início pareceu uma conquista, à medida que antes só estudava o que tinha condições financeiras de pagar os estudos, isto é, os filhos dos nobres ou os que caíam nas graças dos nobres. Toda ou quase toda revolução que promete reviravoltas ou conquistas milagrosas é, geralmente, uma faca de dois gumes.
Quem eram e quantos eram, porém, os preceptores (professores ou ‘ensinadores’) antes da revolução burguesa? Eram poucos, pouquíssimos, e, por isso mesmo, somente as pessoas consideradas muito sábias. Sendo poucos, tinham mordomias impensáveis para os professores da rede pública (ou até particular) brasileira. Constituindo um número reduzido de seletos, desfrutavam de prestígio e de respeito. A título de exemplo, basta lembrar que um dos mestres de Dante Alighieri, doi Brunetto Latini, um dos homens mais cultos e sábios de Florença no fim do século XIII (e cuja alma o personagem-viajante Dante encontra no Inferno, entre os sodomitas, mas a memória do respeito e da reverência se mantém entre o discípulo e o mestre).
Com a pressão exercida por um número cada vez maior de alunos que antes não podiam estudar, lentamente o processo de escolha dos professores não mais podia ser baseado na escolha dos mais sábios, cultos e talentosos. Passou a existir uma demanda maior por pessoas habilitadas a ensinar e, pouco a pouco, portanto, o prestígio caiu, caindo com ele o respeito, os bons salários e as mordomias. De repente, o professor (assim como o poeta, mas em outro nível) passou a ser alguém como os outros, entre tantos iguais. Por que pagar bem e fazer reverência a um sujeito igual a tantos outros sujeitos?
Esta bola de neve ligada ao desprestígio dos professores rola até hoje, e aparentemente não há quem possa detê-la. Um jogador de futebol que saiba driblar e fazer gols com habilidade encanta muito mais as multidões, atraindo milhares de pessoas aos estádios, conseguindo polpudos patrocínios, sobretudo graças às transmissões televisivas, seguidas por milhões, no mundo todo, como uma febre coletiva. Em poucas palavras, por que cobrir de glória e conferir a coroa de louros ao professor, gente como a gente, um ser humano como os outros, sem habilidades particulares, pois não sabe fazer gols de placa, nem compor versos banais e melodias facilmente cantaroláveis, nem escrever estúpidos thrillers policiais ou de falsificação e banalização de mitos e lendas? Nós mesmos somos os responsáveis pelos baixos salários dos professores, já que aos seus ensinamentos preferimos os dribles de Neymar! Nossos governantes só refletem a nossa opinião prevalente, sobretudo num sistema que se diz democrático.
Como resultado deste círculo vicioso mencionado antes, o próprio profissional do ensino, em todos os níveis, mas principalmente nos níveis elementar e fundamental, responde ao desprezo e à indiferença da plebe com a negligência no seu desenvolvimento profissional, desistindo, enfim, de lutar contra uma situação insustentável. Todos sabem que os professores brasileiros, em geral, leem pouco e pouco procuram atualizar-se, até porque não dispõem de recursos para tanto.
Motivos para comemorar talvez não haja. Há motivos de sobra, porém, para ao menos começar uma séria reflexão sobre o papel do professor na sociedade, antes que ele seja substituído por uma maquininha de ensino (à distância, preferencialmente). São inúteis os paliativos e os remendos, pois o baixo prestígio social e os salários exíguos estão diretamente ligados à ausência de valores ético-culturais consistentes e verdadeiros. Afinal, na nossa sociedade, as várias drogas que nos ajudam a suportar a vida, não apenas as relacionadas ao mundo do espetáculo esportivo ou artístico de baixo nível, como também os entorpecentes químicos, gozam de um prestígio muito maior do que o dos professores.

* Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara