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Mendigando o calor da nossa ‘individumanização’

Da redação

22 de junho de 2016 | 15h29

Isabelle Anchieta*

Há invernos outros que não podem ser aplacados com o cobertor. Lembro-me, com isso, de um episódio que alterou o meu modo de ver os ‘mendigos’ da cidade. Estava os fotografando para o jornal da universidade quando uma senhora me chamou. Pediu-me, com toda humildade, que não publicasse a foto, já que vinha do interior e sua família não sabia de sua situação na capital.
Aquilo me deixou literalmente congelada. Por uma série de razões. A primeira foi ter me dado conta que não havia pedido permissão para fotografá-la. Como uma ‘mendiga’, isso aparentemente me daria o direito de fazê-lo? Me questionei. Por que peço permissão às pessoas em geral e não a outras (como mendigos, meninos de rua e etc.)? O que dá direito a uns ao respeito e a outros não?
Ao escutar sua história, percebi que havia mais do que uma ‘mendiga’ ali. Mas uma pessoa, com seus desafios únicos e intransferíveis. Fiquei extremamente constrangida no momento, mas hoje percebo o quão educativo ao meu olhar foi esse chamado de atenção daquela elegante senhora que estava vivendo nas ruas. O que não significa de imediato que tenha romantizado a cena ou feito uma generalização invertida. Tanto que, alguns meses depois, fiz uma série de reportagens com os chamados meninos de rua e presidiários, acompanhando-os durante 3 meses. Percebi que há pessoas múltiplas nesses grupos. Para bem e para o mal. Tanto que em minha primeira abordagem apanhei (pela primeira vez) de um grupo de jovens drogados. Mas fui ‘salva’ por uma das meninas do grupo, que me levou a um lugar mais seguro. O contato com as pessoas é assim: ora frio, ora quente, ora morno. Nenhum é igual ao outro e podem mesmo ser diferentes a cada dia.
O que se deve aprender é que somos simultaneamente particulares e universais. Únicos, mas compartilhamos algo em comum: a nossa humanidade. Esta, sim, deveria ser a linha que nos entrelaça, e não as perigosas categorias intermediárias que criamos para nos classificar mutuamente. Classe; burguesia; pobres; ricos; fascistas; feministas; mendigos; imigrantes; negros; brancos; esquerda; direita; coxinhas e petralhas. Digo ‘perigosas’ porque servem sobretudo para desumanizar os ‘outros’ e assim justificar o ódio e mesmo o extermínio alheio.
É preciso estar além dessas categorias. É necessário conhecer, se aproximar antes de classificar. O conhecimento (em sentido amplo e estrito) é o melhor martelo contra as pedras dos preconceitos. O único capaz de promover um novo arranjo social que poderá ser caracterizado por uma maior tolerância social em relação às escolhas de cada um. Um novo humanismo. Resultado das pretensões, cada vez mais particularizadas, por reconhecimento. Percebendo assim que, quanto mais caminhamos no sentido da subjetivação, mais promovemos a solidariedade em relação ao outro e as suas particularidades. Por isso, propus (em minha tese de doutoramento) o neologismo que une as duas noções, aparentemente inconciliáveis, em uma só palavra: individumanização.
Saímos das imagens em abstrato, marcadas por seres universais e estereotipados, para uma crescente retratação de pessoas. Trocamos a verticalidade, por uma horizontalidade composta por indivíduos. Essa mudança pode expressar, comunicar e definir a maneira como vemos o mundo, os outros, a nós mesmos e como nos tratamos. O mundo povoado por estereótipos pode ceder a um mundo de rostos humanos falíveis e dispostos, inclusive, a mostrar o seu pior ângulo. Para que, nesse gesto, possamos restituir o traço humano. A frágil e indefinida linha que nos figura. Traço que é, sempre, conformado por muitos. Por isso viver em sociedade é integrar esta delicada teia que nos une e nos atravessa. Uma teia firme e ao mesmo tempo frágil. Tensa e por vez elástica. Esse laço que sufoca, mas que também une. Nas belas palavras de Durkheim “a vida em comum é atraente e ao mesmo tempo coercitiva” . Mas não há como escapar a esse enredamento social. Ele não é uma escolha. É a nossa condição. Humana. Demasiado.

isabellepequena* Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP, professora da PUC, recebeu prêmio internacional pela ISA/UNESCO como Jovem Socióloga e distinção acadêmica pela USP. Facebook: Isabelle Anchieta (figura pública). Email: isabelleanchieta@gmail.com

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