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Mudanças no Programa Ciência sem Fronteiras

Da redação

08 de agosto de 2016 | 20h55

José Celso Freire Junior*

O recente anúncio de mudanças no Programa Ciência sem Fronteiras (CsF), com o fim do financiamento dos intercâmbios para estudantes de graduação, trouxe grande inquietação à comunidade acadêmica do País.
Se equívocos em sua implementação e acompanhamento deram respaldo a essa decisão, a falta de uma avaliação efetiva impediu sua valorização. Dificuldades para reconhecimento das atividades acadêmicas realizadas no exterior (existentes no mundo todo) e estudantes que não atingiram seus objetivos acadêmicos (em proporções similares a outros programas de mobilidade do mundo) macularam a imagem do CsF do mesmo modo que a falta de conhecimento em idiomas estrangeiros de nossos estudantes. Em resposta a esta última questão, foi implementado o Programa Idiomas sem Fronteiras (IsF), primeira política pública a abordar da questão de idiomas no ensino superior do País.
O destino dos estudantes também foi criticado, pois um número reduzido teria ido para as 25 melhores Instituições de Ensino Superior (IES) do mundo. Como no mundo existem cerca de 20 mil IES, enviar estudantes a IES que estejam, por exemplo, entre as 500 melhores do mundo (com somente 4 brasileiras segundo o ranking Times Higher Education) certamente oferece a eles uma excepcional experiência acadêmica.
Os argumentos acima foram utilizados para apoiar a supressão das bolsas de mobilidade de estudantes de graduação a favor de bolsas para doutorandos e pesquisadores. É inegável que o avanço da ciência e a construção de parcerias internacionais envolve este tipo de mobilidade que não precisa entretanto, ser prioritária.
Para sustentar esta afirmação se apresentam dados do Erasmus Impact Study do programa Erasmus europeu (que tem objetivos geopolíticos específicos), que é o maior programa de mobilidade do mundo. De 1987 a 2014 foram aplicados 3,1 bilhões de euros para efetivar a mobilidade de 1,6 milhões estudantes na Europa (incluindo também a mobilidade de 300 mil técnicos e professores).
Em 2013-2014, somente 1% das mobilidades na Europa foi realizada por estudantes de doutorado e 29% por estudantes de mestrado. A análise deste número deve ainda considerar que na Europa, o período que um estudante leva para obter um bacharelado mais um mestrado é similar, na maiorias das carreiras, ao período que um estudante brasileiro leva para obter sua graduação.
Segundo o mesmo estudo, em 2013 64% dos empregadores europeus consideraram uma experiência internacional importante para a empregabilidade dos estudantes. Mostrou também que os estudantes participantes de programas de mobilidade tiveram a empregabilidade aumentada em cerca de 25% e as chances de ficar desempregados diminuídas pela metade.
Além disso, segundo análise do McKinsey Global Institute de 2010, How to Compete and Grow, mesmo nos Estados Unidos o setor de tecnologia intensiva de pesquisa não é o grande propulsor do crescimento, sendo sua principal causa a difusão da tecnologia realizada por pessoas talentosas. Os egressos do CsF são perfeitos para desempenhar este papel.
Problemas existiram. Muitos casos de sucesso também. Um número expressivo de bolsistas do Programa CsF foi classificado entre os melhores alunos de suas turmas e promoções. Todas as agências estrangeiras responsáveis pela alocação dos bolsistas brasileiros em IES de seus países têm muitos casos deste tipo a relatar.
Além disso, como indicou Cristian Muller, o ex-diretor do DAAD no Brasil, o CsF efetivamente colocou o Brasil no mapa da educação superior internacional. Mais ainda, foi efetivamente a primeira política pública voltada à internacionalização da educação superior do País, e como tal, deveria ser valorizado.

* José Celso Freire Junior é Assessor-chefe de Relações Externas da Unesp e Presidente da FAUBAI – Associação Brasileira de Educação Internacional, que representa cerca de 200 diretores de relações internacionais de Instituições de Ensino Superior de todo o Brasil

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