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O papel do escritor na nossa conturbada época

Da redação

25 Julho 2016 | 20h22

Sérgio Mauro*

Só agora há pouco me lembrei de que hoje, 25 de julho, se comemora o Dia do Escritor. O que vem à mente é antes o papel da literatura e menos o agente que dela se serve para dar vida a contos, romances, poesias e seja lá qual for o gênero em que se faça uso da palavra escrita. Mas será que ainda há espaço para o escritor e para a literatura no mundo contemporâneo? Se a resposta for sim, que tipo de literatura ainda é possível?
Os primeiros manifestos dos futuristas italianos foram, infelizmente, proféticos. Sem muita consciência crítica, eles auspiciavam que o livro deveria tornar-se uma mercadoria como outra qualquer, numa sociedade em que tudo está à venda e tudo pode ser comprado, inclusive a honradez e a decência humanas.
Sendo o livro uma mercadoria como outra qualquer, a obra literária, se quiser sair da fornalha do escritor, que hoje em dia tem o formato de um computador de mesa, de um notebook ou até de um smartphone, e chegar às ‘mesas’ dos leitores, precisa de um industrial que nela invista e que se empenhe em distribuí-la. Nesse caso, a lógica é a mesma da mídia, impressa, televisiva ou da internet: é preciso saber o que agrada as pessoas, o que as consola e o que as faz esquecer as agruras do quotidiano.
Recentemente, se não me engano na última Flip, um escritor, aos berros e com palavrões, disse não estar minimamente ligando para os seus leitores, isto é, pouco lhe importava quantos iam lê-lo, se é que iam lê-lo. A mim, tal declaração soou pouco sincera, pois quem escreve quer ser lido e comentado. Trata-se da famosa vaidade dos intelectuais e, sobretudo, dos literatos. Até mesmo a personagem Dante, na fantástica viagem pelo reino dos mortos da Divina Comédia, identifica-se com o ‘girone’ dos vaidosos ou orgulhosos, no Purgatório, numa autorreferência que até hoje dá pano para manga aos inúmeros ‘dantistas’ espalhados pelos quatro cantos do mundo.
Além do mais, o referido escritor da Flip esqueceu-se de algo muito importante: ele até pode desprezar o afeto ou o ódio do leitor, mas precisa contar com um editor que o publique, geralmente um industrial que precisa auferir lucros, se não quiser ir à falência e não publicar mais nada, a não ser que seja uma espécie de mecenas, coisa rara atualmente. Até mesmo as instituições públicas educacionais e as fundações só publicam o que garante um mínimo de retorno para o investimento, dentro da lógica do mercado capitalista.
O escritor que se refugiar na sua torre de marfim e ignorar que existe uma lógica de mercado para o produto que ele pretende fazer chegar às mãos dos leitores, geralmente ávidos de produtos que os transportem para o mundo da fantasia, bem distante da loucura que vivenciam cotidianamente, incorre num erro básico, pois se a literatura e, consequentemente, o escritor, ainda têm um papel relevante na sociedade, é apenas quando, bem ou mal, conseguem produzir o que vai ser lido, e que, se tiver qualidade e se for fundamentado sobre reflexões filosóficas, inseridas, se possível, na linha do tempo das grandes obras clássicas ou, por oposição, for capaz de ser profundamente revolucionário, tanto na forma como no conteúdo, podem realmente melhorar o que aí está, ou pelo menos atenuar nossos males hodiernos.
O desafio que se coloca para o escritor de hoje reside justamente no dilema de conseguir chegar ao leitor e ser lido, e não somente colocado na estante como outro objeto de enfeite qualquer. Ser lido somente não basta, porém, pois os verdadeiros escritores não fornecem apenas válvulas de escape, ainda que supostamente baseadas em pseudomanipulações de fatos históricos ou da mitologia greco-romana. O verdadeiro escritor produz cultura, a que age e transforma. É importante saber, enfim, o que as pessoas querem ler, de todas as camadas sociais, de todos os níveis educacionais, mas não para apenas garantir vendagem e lucros, mas para garantir a própria sobrevivência da boa literatura, a que faz pensar, mas pode também divertir e consolar. Garantir a sobrevivência da literatura significa enfim, assegurar que o nobre ofício do escritor não se insira no rol bastante longo das profissões que já desapareceram ou estão desaparecendo.

* Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara

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