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O perigo do ‘novo’ terrorismo

Da redação

14 de junho de 2016 | 15h23

Sérgio Luiz Cruz Aguilar*

Apesar da falta de consenso sobre o que é realmente ‘terrorismo’, os diversos conceitos apresentados por Estados e algumas organizações internacionais levam a alguns pontos comuns na maior parte deles: o uso ilegal ou ameaça do uso da violência; civis ou propriedades como alvos; propósitos políticos dirigidos a uma instituição (Estado, organização) de modo a compelir seus agentes a agir ou abster-se de agir de determinada forma; e provocação ou manutenção de um estado de terror em uma população ou um setor dela.
Historicamente o termo mudou de significado para acomodar vernáculos políticos e diferentes discursos em diferentes contextos e épocas. Mas, desde o governo jacobino na França, no século XVIII, esteve associado ao ‘terrorismo de Estado’ ou a grupos organizados que deliberadamente e sistematicamente se utilizam de ‘atos terroristas’ para atingir um objetivo político.
Esses grupos estiveram confinados em espaços políticos e geográficos específicos até que a Al-Qaeda ‘internacionalizou’ o terrorismo. Com isso, vários grupos no mundo se filiaram a ela, foram por ela criados ou passaram a praticar atentados em seu nome. Mas os atentados continuaram sendo planejados, treinados e executados por membros da organização recrutados, preparados e financiados especificamente para realizarem ataques como os ocorridos nas embaixadas dos Estados Unidos no Quênia e na Tanzânia, e o 11 de setembro de 2001, dentre outros.
Com o Estado Islâmico (EI), surgiram duas novas e perigosas características. A primeira, a liberdade que os membros do grupo têm de realizar atentados, individualmente ou em pequenos grupos, contra alvos em qualquer lugar do mundo considerados ‘inimigos’ do mundo islâmico. Os atentados de Paris no ano passado e de Bruxelas neste ano foram praticados por indivíduos que estiveram combatendo como membros do Estado Islâmico. Com as ações militares na Síria e no Iraque, o enfraquecimento e a possível derrota do EI provavelmente resultará na ‘migração’ ou retorno de membros do grupo – popularmente chamados de ‘jihadistas’ – a diversos países do Ocidente, parte deles propensos a realizarem ataques. Em consequência, a incidência desse tipo de ato terrorista deve aumentar. A segunda, ainda mais difícil de ser prevenida e combatida, diz respeito a pessoas que nunca fizeram parte das organizações terroristas, mas que nutrem por elas uma simpatia tão forte que, quando conjugada com outros motivos, tornam esses indivíduos propensos a realizar atentados. Esse parece ter sido o caso do atentado na Califórnia, no início de dezembro de 2015, e o do último domingo em Orlando, EUA.
Essas novas características complicam ainda mais as ações preventivas e repressivas ao terrorismo. Antigamente, as agências procuravam identificar as organizações, suas estruturas, seus membros, rastrear seu financiamento, localizar suas bases para então realizar ações contraterrorismo. Posteriormente, passaram a trabalhar também com indivíduos que pudessem ter relação com essas organizações, um trabalho mais árduo, com enormes custos, mais demorado e com índices mais baixos de eficácia. Agora, têm que tentar identificar pessoas que podem se inspirar nesses grupos terroristas e, por conta de uma lealdade criada no seu imaginário, se tornar propensos a matar de modo generalizado em locais que nunca fizeram parte da lista de possíveis alvos, como a casa noturna, bares e restaurantes de Paris e a boate de Orlando.
Logicamente, essa propensão é criada, ou ajudada, pela propaganda que diversos grupos fazem por meio das mídias sociais, especialmente e com bastante sucesso pelo EI, e potencializada por outros fatores como sentimento de exclusão social, dificuldades financeiras, xenofobismo, homofobia (como parece ter sido o caso do atentado em Orlando), etc. Se essa nova tendência for confirmada, as ações de prevenção e repressão ao fenômeno se tornarão cada vez mais difíceis e as populações cada vez mais vulneráveis, impactando o sistema internacional e deixando-o ainda mais complexo, volátil e imprevisível.

* Sérgio Luiz Cruz Aguilar é doutor em História com pós-doutorado em segurança internacional na Universidade de Oxford – Reino Unido. Professor da UNESP (Campus de Marília/SP)

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