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O que vem depois?

Da redação

03 Outubro 2016 | 20h23

Renato Xavier*

Muitos questionamentos surgem após o resultado das eleições municipais de 2016, particularmente em São Paulo com a vitória de João Doria (PSDB) ainda no primeiro turno. O resultado acachapante acendeu um alerta na esquerda brasileira: como preencher o vazio de poder deixado pelo Partido dos Trabalhadores?
Os anos do Partido dos Trabalhadores no comando do Brasil (2003-2016) não foram suficientes para a esquerda se organizar. Durante esse período, partidos de esquerda não se firmaram no cenário nacional, oscilando entre apoio incondicional ao PT, como é o caso do PC do B, e uma oposição com fortes laços identitários, o que impedia de avançar na crítica e, por consequência, apresenta-se como opção independente e autônoma. O PSOL foi o que mais se desfez disso. O pouco que se desvencilhou do PT foi capaz de produzir resultados expressivos; o maior exemplo é a ida de Marcelo Freixo (PSOL-RJ) para o segundo turno na corrida pela prefeitura da cidade do Rio de Janeiro.
Ainda assim, no cômputo geral, não é a esquerda que vem preenchendo o vazio de poder deixado pelo principal partido político de esquerda do Brasil. PSD, PP, PR, PROS, PRB pulverizaram a polarização política e aumentaram o número de prefeitos nos municípios brasileiros. Tais partidos se beneficiaram amplamente da era petista no poder. O fortalecimento do PSD, de Kassab, só foi possível com amplo apoio do PT. Os partidos PP e PR igualmente compuseram a base de apoio em nome da governabilidade. Esta mesma governabilidade que agora cobra preço alto ao Partido dos Trabalhadores.
No entanto, a ascensão destes partidos só pode ser explicada em um contexto específico do atual Brasil, qual seja: o fenômeno da negação política, e mais, do fator ‘anti’. Em São Paulo, particularmente, João Doria galgou sua campanha em dois símbolos: o antipolítico e o antipetismo. Como ferramenta poderosa de marketing político, o candidato do PSDB tirou proveito do desgaste da política e dos políticos – que ocorre com mais força desde 2013 -, somado ao desgaste do PT, que se iniciou com o Mensalão e desaguou na Lava Jato.
Diferentemente do que muitos especialistas esperavam, o desgaste político não foi geral e irrestrito. Partidos como o PMDB e o PSDB, partícipes das mesmas práticas políticas do PT e também envolvidos amplamente com empreiteiras, segundo investigações e delações vazadas da Lava Jato, foram os campeões em número de prefeitos. Não foi somente o PSDB que instrumentalizou o discurso da negação da política, candidatos de diversos partidos e movimentos de rua também seguiram na mesma direção. O caso mais emblemático é a eleição de um dos integrantes do MBL para Câmara de Vereadores da cidade de São Paulo. Colocando-se como suprapartidário, o MBL percorreu caminho similar ao da velha política.
Em contrapartida, no Rio de Janeiro, foi o discurso político de Marcelo Freixo que o colocou no segundo turno. Para isso, é preciso ressaltar que o PSOL, diferentemente de outros partidos novos que surgiram nos últimos anos, procurou não reproduzir os erros da esquerda brasileira e pagou caro por isso em outras cidades. O pouco tempo de televisão explica a queda abismal de Luciana Genro, candidata pelo PSOL em Porto Alegre. Com todas as dificuldades, parece que uma campanha limpa, com poucos recursos e poucas alianças ainda é capaz de produzir resultados positivos. Até quando? É preciso aguardar para ver.
Em certa medida, isso pode explicar a dificuldade da Rede em se firmar como partido político que representa algo novo. A liderança de Marina Silva, a centralidade na sua imagem e a dificuldade de se colocar prontamente diante de questões urgentes são obstáculos a serem superados nos anos próximos.
A queda do PT não é definitiva. Os partidos políticos são organismos vivos, estão o tempo todo lutando pela sobrevivência. Quiçá essa luta constante dificulte a percepção da hora de mudar. É da natureza dos partidos a dificuldade de se reinventar, sob o risco de perderem o que os políticos chamam de ‘essência’. Sociedades mudam, práticas mudam, por isso o caminho é a reestruturação e a reeducação dos velhos partidos políticos. Neste ponto, caberá ao Partido dos Trabalhadores refletir sobre seus próprios erros e começar a mudança de dentro para fora.
A esquerda brasileira parece caminhar lentamente em novas direções, mas enquanto não há uma acomodação de novas forças – e 2018 será fundamental para isso -, a tendência é que esses espaços sejam preenchidos por partidos que se apresentam como se não tivessem vinculação ideológica, por candidatos que se apresentam como peça fora do jogo político. No entanto, para o bem da democracia, nunca sem que haja forças contrárias. A passos lentos, mas sempre.

* Renato Xavier é pesquisador do Programa de Pós-graduação San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC-SP) em Relações Internacionais