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O triste espetáculo dos moradores de rua em São Paulo

Da redação

22 de junho de 2016 | 15h21

Sergio Mauro*

A polêmica sobre os moradores de rua de São Paulo e a atitude, no mínimo inadequada, do atual prefeito de São Paulo, parece não ter fim. Os números impressionam: seriam, oficialmente, quase 16 mil os ‘homeless‘ paulistanos, mas é muito provável que essa legião seja muito maior, devido à dificuldade encontrada no levantamento dos muitos ‘não identificáveis’ e ‘invisíveis’ para quem corre apressado pelas ruas da capital. Pessoas que não possuem residência fixa e se espalham pelas praças e calçadas das grandes cidades não é, certamente, uma característica apenas paulistana ou brasileira, pois eles podem ser vistos em capitais europeias ou norte-americanas também. Não é culpa apenas da atual administração municipal, pois o problema se agravou a partir do momento que São Paulo escolheu o caminho do desenvolvimento a todo custo, sem planejamento e sem o estabelecimento de limites para a população máxima ou de quotas para a entrada de pessoas em busca de trabalho no (falso) eldorado da terra da garoa. O que deve ser discutido agora, em que a situação parece ingovernável, é como resolver ou, pelo menos, atenuar os problemas.
Em primeiro lugar, seria preciso investigar quais são os motivos que levam essa quantidade ingente de pessoas a escolher a rua como morada. Não é apenas a miséria provocada pelos problemas sociais e pela péssima distribuição de renda brasileira, como inicialmente poderíamos supor. Trata-se principalmente de um problema, não apenas brasileiro, que diz respeito à desestruturação familiar, agravada nos últimos 30 ou 40 anos por vários fatores como a facilitação do divórcio e a maior independência das mulheres com a conquista do mercado de trabalho, antes preferencialmente masculino. Infelizmente, o que muitas vezes parece conquista social ou comportamental revela-se, com o passar dos anos, uma faca de dois gumes. Evidentemente, foi uma grande conquista a independência da mulher nos anos 60 e 70, embora ainda hoje ela se restrinja, sobretudo, aos ambientes urbanos das sociedades mais industrializadas. No entanto, o relacionamento homem-mulher e, sobretudo, marido-esposa, teve de passar por um processo de reconsideração e de adaptação, por vezes traumática, a uma realidade não experimentada pelas gerações anteriores. Os papéis mudaram, exigindo novos desempenhos no teatro social, e isso leva a um número cada vez maior de separações e, consequentemente, de famílias desestruturadas, tendo como consequência o aumento do alcoolismo e do uso de drogas e, enfim, do recurso à rua como única esperança para quem já não possui um lar ou não sabe mais que papel lhe cabe nesse lar.
Lembro-me de Ironweed, um belíssimo filme de Hector Babenco dos anos 80, com Jack Nicholson no papel principal, interpretando um homeless nova-iorquino que busca as ruas depois de várias tragédias familiares e do alcoolismo consequente. A interpretação eficaz de Nicholson e a direção segura de Babenco transmitem ao espectador a dose necessária de comoção para que se considere o drama humano vivenciado por um homeless que, de repente, se vê destituído de um norte e procura o suicídio lento e certeiro das sarjetas, das ‘casas’ de papelão ou dos refúgios sob viadutos e pontes.
Não se tratando apenas de uma questão de miséria econômica, portanto, a distribuição de comida realizada pelas autoridades ou por membros da igreja, embora compreensível como medida de urgência, e que propiciou as deprimentes disputas por mantimentos entre os homeless paulistanos, constitui um paliativo que não apenas não enfrenta adequadamente o problema, como também pode indefinidamente adiar a sua solução. Assim como no filme de Babenco, que explicita a origem de um drama humano, caberia uma ação conjunta entre assistentes sociais, educadores e voluntários de todos os tipos para identificar, um por um, cada morador de rua, chegando à origem da sua escolha, voluntária ou não, da rua como habitação. Reconheço que se trata de tarefa hercúlea, mas, a meu ver, a única que poderia produzir resultados palpáveis e duradouros.

* Sergio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara

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