Recomposição de forças políticas e a judicialização da política no Brasil
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Recomposição de forças políticas e a judicialização da política no Brasil

Da redação

10 Novembro 2016 | 14h57

Sara Toledo*

Historicamente, a dinâmica política brasileira é pródiga em demonstrar seu caráter corrupto. Marcado por uma tradicional cultura clientelista e patriarcal do Estado, a corrupção fora estruturalmente construída e parece estar arraigada nas práticas políticas, escandalosamente, até a atualidade. Neste ambiente, a reação mais prosaica do senso comum sempre fora a de aceitar a corrupção como constitutiva ao Estado brasileiro, de modo a acomodar na percepção popular que o menos pior ‘é quem rouba mas faz’ – analogia ao malufismo. Neste cenário, é inegável que a ideia de justiça acaba ocupando lugar central não apenas no imaginário político popular, mas também entre outros setores e grupos e tornando-se lugar comum dentre a crítica midiática.

Nada mais natural, afinal, a ideia de justiça – que tem como pressuposto central a verdade e a punição – em uma democracia representativa torna-se basilar, uma vez que o representado se vê lesado diante do ‘contrato’ político entre eleitor e governante. Neste sentido, os três poderes constitutivos de nossa frágil democracia se veem cada vez mais diminuídos diante do apoio da opinião pública em torno do Judiciário, a fim deste conter e punir as injustiças políticas. Fenômeno que ficou evidente em 2005, com o julgamento do mensalão, e sobretudo, com a Operação Lava Jato e a deflagração de amplo apoio de diversos setores sociais.

Neste cenário composto por bandidos e mocinhos, o PT, por referenciar a esquerda, que traz consigo o emblema de ‘justiça’, acabou por morrer pela boca na medida em que se utilizou de práticas corruptas estrondosas, objeto da Operação Lava Jato. Neste sentido, por negação e oposição, o PT perde espaço e com o impeachment e particularmente as últimas eleições estaduais e municipais, chega ao esgotamento.

O cenário político doméstico dos últimos vinte anos no Brasil alimentou ampla polarização política encabeçada por PT e PSDB. Adicionalmente, com os escândalos de corrupção, a oposição naturalmente cresceu, e ganhou fortalecimento fundamental com o giro do PMDB ao PSDB. Assim, o PT perdeu o pilar central da base frágil de coligações.

O raciocínio polarizado funciona como uma espécie de negação dicotômica; isto porque pensar a partir de opostos acaba levando necessariamente à negação de um como condição de referências ao outro. Como afirmei antes, “o que ocorre é que precisamos de certo didatismo ao compreender os processos políticos e, ao mesmo tempo, todos buscamos referências (…), pensamos melhor quando criamos referências e canalizamos todas as nossas insatisfações em símbolos que ao mesmo tempo explicam como as coisas devem ser e por que elas ainda não são. É muito mais fácil pensar de maneira dualista e, portanto, polarizada, pois, compreendemos o mundo a partir a lógica de que ‘se não é preto só pode ser branco’ e assim, criamos respostas para tudo e atribuímos sentido ao estado de coisas tais como elas se apresentam” (http://unesp.br/semdiplomacia/opiniao/2014/37).

As últimas eleições estaduais e municipais demonstraram o fortalecimento estrondoso da oposição, e a composição de forças que dava equilíbrio ao PT no processo de polarização alterou-se, alimentada pela negação ao partido de Lula, acabando por desdobrar-se em um novo quadro de forças políticas, com a predominância, portanto, do PSDB. Ao mesmo tempo, o recorde de votos brancos e nulos também demonstraram a falta de opções ao eleitor e um iminente vazio político que cada vez mais acomodado pela oposição.

Diante deste novo cenário, mesmo com as tentativas de barrar a Operação Lava Jato por parte da classe política que agora ocupa o poder, da direita à esquerda, a ideia da intervenção do Judiciário na dinâmica e composição política torna-se cada vez mais endossada pela opinião pública, que aguarda atentamente as punições severas aos culpados. Deste modo, o judicialismo na política brasileira ganha cada vez mais espaço diante da constatação prosaica de que o universo da política, independente da legenda partidária, é sórdido e tende muito mais a vícios do que a virtudes. Torna-se cada vez mais comum na cena pública o fortalecimento do Judiciário com a ampliação de sua dimensão política, suprindo os vazios que deveriam ser preenchidos pelos partidos políticos.

* Sara Toledo é pesquisadora em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC – SP)