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Tom Zé e o mercado financeiro

Da redação

02 de setembro de 2016 | 15h10

João Ricardo Costa Filho*

Quanto tempo dura a lua de mel entre o presidente e o mercado financeiro? A resposta para esse questionamento é crucial para compreender os rumos de diversos preços de ativos. Olhando o comportamento da bolsa em 2016, fica difícil não imaginar que grande parte do desempenho do Ibovespa seja atrelada à expectativa de uma guinada forte na política econômica. Ressalta-se aqui a palavra ‘expectativa’. É ela que direciona o comportamento dos agentes.

Ao assumir, Michel Temer recrutou um time de peso para o Ministério da Fazenda. Economistas excelentes sob a tutela de Henrique Meirelles, cuja articulação política e histórico no BC respaldam as duras ações que serão tomadas pelo governo. Ou assim acredita (deseja?) o mercado financeiro. Logo que tomou posse, Meirelles disse ‘devagar que estou com pressa’. Difícil não lembrar da música escrita por Tom Zé, ‘Tô’, que diz ‘Lentamente pra não atrasar’.

Há quem aposte que com a troca de governo a paralisia política será removida e as reformas fiscais – cruciais para resolver os entraves econômicos, mas não suficientes para fazer o Brasil voltar a crescer – serão realizadas. Contudo, o discurso austero contrasta com aumentos de gastos recentemente autorizados, o que traz dúvida sobre o real compromisso com o ajuste fiscal. Com sorte, emprestados de Tom Zé ‘Tô dividindo pra poder sobrar’, porque este não é um momento para ‘Desperdiçando pra poder faltar’.

Logo, o mercado financeiro colocará o Poder Executivo na parede. Atribuiu-se à hesitação do governo a definição do processo de impeachment e as eleições municipais. É possível que a estratégia seja a de esperar esses dois grandes eventos para poder investir capital político em ações duras e necessárias. ‘Devagarinho pra poder caber’ escreveu Tom Zé. O músico também nos presenteia com ‘Bem de leve pra não perdoar’ e “Carinhoso pra poder ferir’. O mercado financeiro quer acreditar nisso.

Há, no entanto, quem ressalte que a probabilidade de Michel Temer emular um governo ‘a la’ Itamar Franco, com a arrumação necessária na economia, não seja tão alta quanto alguns agentes insistem em acreditar. Essa inconsistência de escolhas não teria a ver com a interinidade e com as eleições. A dúvida reforça a incerteza que paira na economia há pelo menos um par de anos. O governo precisará ser muito claro nas suas escolhas para poder capitalizar o voto de confiança dos bancos e trazer, de fato, o dinheiro dos investidores.

Enquanto o discurso apontar para um lado e as ações para outro, mais parece que:

‘Eu tô te explicando
Prá te confundir
Eu tô te confundindo
Prá te esclarecer’

* João Ricardo Costa Filho é professor da Faculdade de Economia da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), mestre em Economia de Empresas pela Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV/EESP) e doutorando em Economia pela Universidade do Porto (Portugal)