As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Trump: o anúncio de uma nova governabilidade?

Da redação

17 Novembro 2016 | 17h06

Isabelle Anchieta*

Para além do alarde negativo da eleição de Trump, é preciso ter a sensibilidade de compreender os novos rumos do processo social em curso na América. Trump apenas o confirma. Antes dele, Mauricio Macri na Argentina e entre nós, no Brasil, as prefeituras de duas importantes cidades como São Paulo e Belo Horizonte com João Doria e Kalil são sintomas de uma nova aposta social. Assim, mais do que pontuar a análise na suposta xenofobia, racismo, machismo e falas desastrosas de cada lado, é preciso ampliar o foco. Entender esse (quase) misterioso mecanismo social que parece sintonizar as novas demandas de pessoas que vivem realidades tão distintas.
Para elucidar essa incógnita, me parece interessante observar as recorrências. E a mais significativa delas é a aposta nos antipolíticos. Os ‘outsiders’. Aqueles que não estão dentro do campo e dos vícios de seu sistema, mas que, por outro lado, possuem experiência administrativa bem-sucedida na condução de grandes empresas e instituições. Fato que lhes garante também certa isenção moral, pensam: ‘é rico e, portanto, não entrará para a política para roubar o dinheiro público, mas sim por um compromisso genuíno em acertar o caminho’.
É importante entender a emergência dessa nova sensibilidade social com relação à corrupção aliada a um pragmatismo na escolha dos novos dirigentes, motivada claramente pela exaustão com a chamada velha política. É sobretudo uma aposta na renovação das práticas (administrativas e éticas). Por isso, a sinceridade, ainda que ‘politicamente incorreta’ soa como boa música a ouvidos cansados de ideologias e hipocrisias. E, por mais difícil que pareça ser, Trump representou mais esse novo caminho do que Hillary.
Tal pragmatismo não parece, por outro lado, se travestir em uma direita (insensível) tal qual a estereotipamos. Há claramente uma absorção da agenda da chamada esquerda. O que implica no compromisso de manter programas sociais e mesmo ampliá-los. Nesse sentido, a escolha de Trump não pode ser lida simplesmente com um mero erro de percurso, mas uma escolha meditada (e não admitida) pelos americanos. Trump não se elegeu com o voto da ‘burguesia branca’, como se quer crer. Mas com o voto dos latinos (que estão legais no país e querem uma reserva do mercado de trabalho) e mesmo das mulheres e dos negros. Não nos enganemos!
É importante indagar em que medida sua eleição é mesmo um passo para trás, ou fruto da compreensão dos eleitores de que o discurso progressista não deu o esperado passo para frente? Em que medida a globalização conseguiu humanizar as relações entre culturas e povos ou, na prática, tem beneficiado a capilarização de grupos radicais? Nesse sentido, estabelecer limites e regras para a legalização dos imigrantes seria algo totalmente equivocado em um mundo em que o terrorismo e a guerrilha parecem aproveitar-se dos benefícios da globalização? Fazer tal controle implica em uma xenofobia? Pode ser que sim, pode ser que não.
O importante é (antes de sair para o ataque) matizar e entender as decisões das pessoas sem encaixá-las em estereótipos de fácil leitura. Como bem colocou um médico argentino Jorge Ortiz, que mora e trabalha em Boston, ao aproximar a eleição americana às recentes decisões dos colombianos: ‘Eles não votaram contra a paz, como nos querem fazer crer (quem em sã consciência votaria contra a paz), mas sim contra a impunidade de um grupo de narcotraficantes que durante 50 anos aterrorizaram a Colômbia com violência, morte e crimes de toda natureza. Já os norte-americanos são o povo mais tolerante, aberto e diversos que conheço. Não se opõem à imigração, tanto que recebemos milhares de imigrantes e refugiados todos os anos. Mas se opõem sim à imigração ilegal e aos ‘terroristas’.
Nessa direção, questiono se o caminho não seria o fortalecimento de organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) na direção de resolver mais enfaticamente conflitos como na Síria e África, em vez de atribuirmos essa responsabilidade a uma só país ou de realizarmos ações com efeitos pontuais. Vamos continuar a resgatar refugiados do mar? A armar acampamentos? Estamos ‘enxugando gelo’ caso não ataquemos as origens do problema buscando ofertar uma vida digna dos povos onde quer que seja. O compromisso humanístico não deve se perder. Mas há mil formas e caminhos para seguirmos acreditando nisso (a despeito dos muros que querem construir), inclusive formas mais inteligentes e efetivas.
Por isso, me parece precipitado chamar o ‘eleitor de Trump’ de idiota. Seria compreender parcialmente o seu lugar no novo desenho demandado pela sociedade americana, latino-americana e mesmo europeia. É uma aposta em um outro caminho e só mais adiante saberemos quão benéfica será (ou não) para promoção dos valores humanos fundamentais.

* Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP, prof(a) da PUC, recebeu prêmio internacional pela ISA/UNESCO como Jovem Socióloga e distinção acadêmica pela USP. Facebook: Isabelle Anchieta (figura pública). Email: isabelleanchieta@gmail.com