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Um basta na morte de policiais

Da redação

11 Julho 2016 | 20h23

Rafael Alcadipani *

No dia 10 de julho de 2016, domingo, Leandro de Abreu, policial civil, iria completar 39 anos. Leandro trabalhava na Divisão de Homicídios da capital em uma das equipes que realiza locais de homicídios. Querido pelos amigos e colegas de trabalho, Leandro sempre tinha uma palavra de incentivo e de humor para os que com ele conviviam. Na manhã de sábado, dia 9 de julho, dia do aniversário da Revolução Constitucionalista de São Paulo, Leandro retirava seu carro da garagem quando foi abordado por criminosos. Os marginais roubaram o veículo do policial e também o assassinaram de forma cruel e covarde. Alguns dias antes, um policial militar rodoviário, Tarcísio Gomes, que estava com sua viatura parada, foi executado por tiros de fuzil por uma quadrilha que iria efetuar um roubo de valores e deparou-se com o policial.
A execução de colegas é um evento frequente na vida dos policiais brasileiros. Sete a cada dez profissionais de segurança pública possuem colegas de trabalho próximos que foram assassinados. Policiais fora de serviço tendem a ser mais vítimas do que quando em serviço. Isso pelo fato de estarem sozinhos, sem colegas para apoiá-los e, o pior, quando o criminoso descobre que ele está assaltando um policial, tende a matar o agende da lei sem dó nem piedade. Na realidade, ao sair de casa com uma arma e sua carteira funcional, o policial sabe que pode se deparar com uma situação de vida ou morte. O Brasil é um dos países mais perigosos do mundo para se ser policial, e o quadro parece piorar a cada dia.
Ao mesmo tempo em que o morticínio de policiais no Brasil ganha cada dia mais vítimas, governos e sociedade parecem não mostrar sensibilidade para o problema. É como se a vida do policial não importasse. Toda vez que um policial é morto e se há alguma comoção, escuta-se uma bravata aqui e outra acolá, mas mudanças expressivas não são propostas. Diante de governos e políticos ineptos e oportunistas, resta à sociedade clamar por uma mudança.
Nós da sociedade civil devemos condenar veementemente toda vez que um policial é morto. É urgente desnaturalizar o problema. Na recente tragédia de Dallas, em que policiais foram abatidos, pessoas das diferentes classes sociais e idades prestaram suas homenagens aos policiais mortos. Flores, cartões, balões foram colocados nas ruas em homenagem aos policiais mortos. Há inúmeros relatos em cidades dos EUA onde após os eventos de Dallas, pessoas disseram palavras de elogios e de apoio para policiais nas ruas. Atitudes como esta podem parecer muito singelas, mas aos poucos elas mostram que vidas dos policiais precisam ser protegidas.
Com este espírito, há uma crescente sensibilização dos próprios policiais para o problema da sua vitimização. A morte de Tarcísio gerou inúmeras manifestações e homenagens dentro da PM. A morte de Leandro levou mais de 200 policiais às ruas de São Paulo para ajudar no trabalho de investigação. Houve policiais vindo do interior prestar apoio. Neste sentido, seria importante que Polícia Civil, PM, Polícia Científica e Guardas Municipais deixassem algumas de suas diferenças de lado e se unissem no combate à violência contra seus membros. A morte de um policial deve gerar uma resposta única de todas as forças, uma resposta que sensibilize a sociedade para o problema.
O fato de nosso sistema de Justiça Criminal em todas as suas faces precisar de melhorais não pode e não deve causar indiferença na proteção da vida daqueles que estão nas ruas 24 horas por dia tentando proteger a sociedade. Todos nós temos um único inimigo: o crime praticado por quem quer que seja. É urgente uma sensibilização para que a vida volte a ter valor no Brasil, a fim de que nunca mais mães tenham que enterrar seus filhos, especialmente no dia em que eles fazem aniversário. Basta!

* Rafael Alcadipani é professor de Estudos Organizacionais da FGV-EAESP

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