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Uma alegoria do Tempo revelando a Verdade

Da redação

30 de junho de 2016 | 15h59

Isabelle Anchieta*

Sempre que penso no processo social e político vivido pelo País desde 2013, uma imagem me ocorre. O quadro do francês Jean François De Troy, do séc. XVIII. ‘Uma alegoria do Tempo revelando a Verdade‘, de 1733, atualmente na National Gallery, em Londres. Nele uma mulher impõe-se na cena. Não só por sua centralidade, mas por sua clareza; brilho; quase transparência. Despida por um homem alado, é a mulher, no entanto, que parece controlar soberana os demais personagens. Pisa uma esfera, como se nesse gesto tivesse o mundo aos seus pés. Ela, no entanto, não é uma mulher. Mas uma alegoria. Uma expressão figurada de uma ideia que ultrapassa a sua imediata compreensão.


O título da imagem oferece as pistas; trata-se da alegoria da Verdade e do Tempo. Eis que podemos então olhar para imagem de outra maneira. Vemos, enfim, a figura alada do Tempo segurando sua foice e desvelando a sua filha, a Verdade. Ela, por sua vez, com um gesto delicado, mas decidido, desmascara mais uma vez uma velha mulher: a fraude. Do lado oposto, a Verdade nos aponta quatro mulheres que se ajoelham diante dela. Representam as quatro virtudes cardeais, ou centrais. Número simbólico que remete aos pontos cardeais, às estações do ano, à estabilidade e à estrutura necessária para manter as coisas de pé.
A primeira mulher senta-se sobre o leão, como prova de sua coragem. Ela é a Fortaleza, a energia necessária para as lutas que a vida impõe. Ao seu lado – igualmente fascinada pela imagem da Verdade – está a Justiça, portando uma espada e uma escala, como símbolos de sua imparcialidade e poder. Quase mimetizada a Justiça, a Temperança se apoia sobre seu corpo. Toca com uma das mãos o manto da Verdade e com a outra leva, quase de forma imperceptível, um vaso de água. Símbolo de sua abstinência, autocontrole e moderação. De pé está, por fim, a Prudência, envolta em uma serpente, símbolo de sua sabedoria. Unidas estão assim: a Fortaleza, a Justiça, a Temperança e a Prudência.
Completamos a cena e podemos, mais uma vez, olhá-la observando agora não mais as alegorias isoladamente, mas a relação por elas proposta. A Verdade nos mira, mas não frontalmente. Ela gira o rosto, o corpo e nos aponta delicadamente o caminho: as virtudes fundamentais. Simultaneamente, o Tempo, ao desvelar sua filha, revela também o poder de desmascarar os fraudulentos. De oferecer a sua verdadeira face, por mais que eles se esquivem. A Verdade é soberana e não perde o seu vigor, sua jovialidade e capacidade de ordenar a cena, de emprestar a ela uma nova claridade.
Eis que vemos os brasileiros igualmente diante da Verdade, durante um longo processo de desvelamento do Tempo. Ao que parece estamos ora fascinados com sua claridade, ora assustados com o que passamos a ver. Máscaras esfacelaram-se, mesmo aquelas que pareciam ‘imunes’. A Verdade impõe-se com uma luz que nunca havíamos visto. Parece inevitável que ilumine e ofereça transparência a toda a cena, que não poupe as mentiras nem dos gregos, nem dos troianos. Despida de todos os artifícios, ela nos sugere delicadamente o caminho, sem impô-lo. Cabe a cada brasileiro a sua ‘eleição’. Ou aderimos às belas virtudes da Justiça, da Temperança, da Prudência e da Fortaleza que se curvam diante da Verdade, ou a obscuridade e provisoriedade da mentira, sempre à mercê do Tempo e da Verdade.

isabellepequena *Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP e professora da PUC. Recebeu prêmio internacional pela ISA/UNESCO como Jovem Socióloga e distinção acadêmica pela USP. Facebook: Isabelle Anchieta (figura pública). Email: isabelleanchieta@gmail.com

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