A arte de matar o presidente

Tutty Vasques

26 Setembro 2010 | 06h19

ghjNão chega a ser plágio, mas a ideia artística de matar o presidente do Brasil não é original do pernambucano Gil Vicente naqueles desenhos em carvão que viraram polêmica na abertura da 29ª Bienal de São Paulo. Antes de Lula e FHC – vítimas da vez -, Fernando Collor já havia sido abatido por Gabriel, o Pensador com “um tiro só bem no olho do safado”. Diz o rap Tô Feliz (Matei o Presidente), de 1992: 

“Todo mundo bateu palma quando o corpo caiu/Eu acabava de matar o Presidente do Brasil.”

Tá certo que a imagem de um assassinato vale mais que mil palavras a respeito de outro, mas a letra quilométrica e sanguinária da canção também contou com a ajuda decisiva da censura para dar fama de Pensador a um moleque que, na época, tinha a idade do Neymar. O rapper Gabriel nasceu assim, sob os auspícios da proibição no rádio e na TV em todo o território nacional.

“Não me arrependo nem um pouco do que fiz

Tomei uma providência que me fez muito feliz.”

Gil Vicente, da mesma geração do também pernambucano Maurício Arraes – gente que educou o pincel na Paris dos anos 1970 -, também só tem a agradecer à força que a Ordem dos Advogados do Brasil deu na divulgação da série Inimigos, ao defender sua exclusão da Bienal de São Paulo pela prática de “apologia ao crime”. Gil já havia exposto antes em Natal, Recife, Campina Grande e Porto Alegre os mesmos autoretratos em que posa de assassino, entre outros, de Lula e FHC, mas quem liga para isso se não houver censura ao artista?

Muito provavelmente, entre Gabriel Pensador e Gil Vicente, muitos outros artistas mataram presidentes em seus ateliês, estúdios de gravação e livros de poesia sem que ninguém lhes desse a menor bola. A apologia desse tipo de arte depende sempre de uma estupidez qualquer contra a liberdade de expressão. Gil Vicente ganhou, nesse sentido, a chancela da OAB-SP. Tem mais é que comemorar!