A cara do dono!

Tutty Vasques

05 Novembro 2010 | 06h58

Foi o cineasta Murilo Salles que me ensinou o truque! Estávamos cara a cara com o diretor de um longa metragem horroroso, cuja pré-estreia privê a gente acabara de assistir juntos: “O filme é a sua cara, bicho!” Entre um abraço e outro ainda mais apertado, ele variou pouco: “Incrível como é a sua cara, cara”!

Quando o assunto parecia esgotado, Murilo passou a bola para outro convidado que tentava escapar por trás do autor: “O filme não é a cara dele?” E fomos saindo suficientemente de fininho para ouvir o rumo que a conversa tomou às nossas costas: “Achei este filme ainda mais a sua cara que o anterior!”

Isso quer dizer o seguinte: ninguém se ofende com a própria cara como auto-referência! Ainda que ela não seja lá essas coisas, é sua, né? Não sei exatamente o que o Lula quis dizer dia desses com “o governo da Dilma tem de ter a cara da Dilma”, mas acho que o presidente adotou o método Murilo Salles de não se comprometer com o elogio à obra alheia.

Se, amanhã, o governo de sua sucessora não der certo, todo mundo vai falar, da mesma forma, que é a cara dela.