A desmoralização da coerência

A desmoralização da coerência

Tutty Vasques

16 de maio de 2010 | 09h28

ILUSTRAÇÃO POJUCAN

ILUSTRAÇÃO POJUCAN

A torcida pode ter até aproveitado a oportunidade para se inspirar nos xingamentos ao técnico da Seleção, mas, justiça seja feita, quem meteu a mãe do Dunga no meio dessa vez foi ele próprio ao responsabilizá-la em entrevista coletiva pelas noções de educação e patriotismo que conserva até hoje. Em defesa de Dona Maria, devo dizer que, muito provavelmente, o filho não entendeu bem suas lições.

Uma ex-professora de História jamais cultivaria em casa o sentimento de que “quem não viveu a época da escravidão não pode falar se ela era boa ou não”. Para não dar margem a mal-entendidos, Dunga completou seu raciocínio: “Do mesmo modo que quem não viveu a ditadura não pode saber se ela era boa ou ruim”.

Disse isso sem mais nem mesnos, salvo engano para explicar porque não poderia se pronunciar sobre o desastre do Brasil na Copa de 2006. Na época, como se sabe, Dunga não estava na Seleção. Entendeu? É muito difícil interpretar o que ele diz, especialmente quando tenta ser coerente:

                “Fui ver o Mandela, um dos maiores sonhos da minha vida, porque era um líder sem poder, só com a mente e com a inteligência. Minha mãe me ensinou: meu filho você tem que ser educado. Não leve ninguém para a casa dos outros sem avisar. E aí fui criticado porque não disse para ninguém que ia lá. Disseram: “O Dunga quer voltar com o apartheid.” Apartheid? Que coisa feia. E falam isso sem ter vivido.”

         Nem Joel Santana, tentando se expressar em inglês é tão confuso, embora engraçado, coisa que Dunga faz questão de não ser. “Eu falo o que as pessoas não querem ouvir!” Ninguém merece, né não?! É sério candidato a entrar para a história como o sujeito que desmoralizou a coerência.

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