A doutrina do chute no traseiro

A doutrina do chute no traseiro

Tutty Vasques

13 de junho de 2010 | 09h13

ILUSTRAÇÃO POJUCAN

ILUSTRAÇÃO POJUCAN

Bo, o cão d’água português dos Obama, anda apavorado pelos cantos da Casa Branca. Não faz ideia dos problemas que seu dono está enfrentando com a lambança da British Petroleum no Golfo do México, mas entendeu direitinho o presidente dizer na TV que anda “em busca de um traseiro para chutar”. Ainda que nunca tenha passado pela experiência, todo cachorro sabe o que é isso. O pé no rabo é um complexo de vira-latas que está no DNA até dos animais de raça!

         Nem precisa ser cachorro para perceber logo que algo deu errado na chamada “doutrina Obama”. Não é possível que, duas semanas após seu lançamento, a estratégia de diálogo aberto em questões de segurança comece, na prática, justo pelo dogma do chute no traseiro. Chutar é humano, mas imagina se todo mundo sair por aí anunciando as vontades que tem toda vez que não consegue resolver civilizadamente um problema aparentemente banal como o conserto de encanamento.

         Nem precisa ser político para saber o que é isso: vontade de chutar o traseiro do seu chefe, da sua sogra, de sua empregada… Todo mundo já teve, um dia, impulso de chutar o traseiro do namorado, do vizinho de cima, do atendente de call center, do motorista da frente, do síndico, flanelinha ou encanador. Sem falar na preferência nacional pelo traseiro dos políticos, de forma geral, e do Dunga, em particular.

         Na maior parte das vezes, quando acontece, o ser humano respira fundo, conta até dez e espera a vontade passar. Passa! No caso de Obama, o que está demorando é o ser humano se dar conta de que não tem competência para prospectar petróleo a 1,5 mil metros de profundidade. O que está acontecendo já há mais de 50 dias é um aviso. A ameaça do chute no traseiro do poderoso chefão da British Petroleum não vai resolver o problema. Só serve para assustar o pobre do Bo.

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