A exumação de Van Gogh

Tutty Vasques

23 Outubro 2011 | 06h46

ILUSTRAÇÃO POJUCANSabe Deus quem teve o bom senso de não dar ouvidos ao juiz que, em março, autorizou a exumação do Tim Maia para averiguação de paternidade, já basta essa compulsão que os historiadores da arte têm por desenterrar o Van Gogh aos pouquinhos. O pintor tem sido figurinha fácil no noticiário policial de época.

Agora mesmo, quatro meses após as investigações que desmascararam um de seus autorretratos mais famosos – o rosto pintado, sabe-se agora, era do irmão, Theo –, uma nova biografia do artista assinada por gente séria (Steven Naifeh e Gregory White Smith têm no currículo um prêmio Pulitzer no gênero) reabre o caso do pintor com outra maluquice daquelas: vítima de bala perdida, ele próprio teria induzido a polícia a acreditar na versão de suicídio.

Quem ainda hoje vive na dúvida se Vincent Van Gogh teria perdido a orelha num ataque de loucura ou numa briga feroz com Paul Gauguin, ficou sabendo, com precisão, um pouco menos sobre essa espécie de Tim Maia dos impressionistas.

A nova crônica sobre a morte do holandês esquizofrênico que coloria o Sul da França conta que, em meados de 1890, aos 37 anos, ele saiu para beber com dois adolescentes e, já todo mundo de cara cheia, foi atingido no peito por um tiro disparado da arma enguiçada com que um dos rapazolas, vestido de vaqueiro, brincava com o outro. Pode?

Ainda ferido, o artista teria inventado a versão do suicídio para livrar os amiguinhos de farra do julgamento. Por muito menos, convenhamos, o Vaticano pediu desculpas às vítimas de pedofilia praticadas por sacerdotes.

Os meninos de hoje devem estar confusos sobre quem foi, na verdade, Vincent Van Gogh! Já se sabe que ele não cortou a orelha, não pintou a si próprio – mas a outro – em autorretrato e não se matou, ou seja, só falta descobrirem que ele nunca foi doido!