A primavera americana

Tutty Vasques

09 Outubro 2011 | 06h42

ilustração pojucanPor mais justo e oportuno que seja o protesto, ato público algum hoje em dia tem visibilidade sem uma ajudinha das forças de repressão. Mesmo com aquele bando de malucos acampados por três semanas numa praça em pleno centro financeiro de Manhattan, o movimento ‘Ocupem Wall Street’ só conseguiu visibilidade na grande imprensa americana depois que, para desobstruir a Ponte do Brooklyn, a polícia prendeu 700 manifestantes no domingo passado.

Nem foi preciso descer a borracha, como se faz habitualmente nas ruas de Santiago do Chile e de Atenas, na Grécia. Em Nova York, meca das liberdades individuais, o simples uso de algemas de plástico bastou para botar a opinião pública do lado dessa galera diferente na celebração da morte anunciada do capitalismo voraz.

Dia seguinte, o número de ativistas fantasiados de “zumbis corporativos” praticamente dobrou em NY, fazendo a mobilização avançar por Los Angeles, Chicago, Boston, Washington e Kansas City. Tomara que mantenha por aí afora o bom humor incomum aos rituais de excluídos, marca registrada dessa primavera americana meio hippie, meio eletrônica, pretensamente visionária de uma nova ordem mundial.

“Comam os ricos!” – alguém recomenda numa tabuleta, sob faixa em desafio aos operadores da Bolsa de Valores da vizinhança: “Trabalhe, consuma, cale-se e morra. Confio em sua apatia!” Podem até, como dizem, se inspirar na “Primavera Árabe” e nos “Indignados” espanhóis, mas o modus operandi da coisa é diferente do que já se tentou fazer recentemente para mudar tudo-isso-que-aí-está.

Na semana em que o mundo perdeu a inventividade de Steve Jobs, a esperança de uma saída criativa pode se renovar nas manifestações previstas para hoje, especialmente em Manhattan. A polícia de NY está, desde ontem, de prontidão pra dar aquela forcinha ao movimento.