As espiãs de vida fácil

As espiãs de vida fácil

Tutty Vasques

04 de julho de 2010 | 09h10

ILUSTRAÇÃO POJUCAN

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Os órfãos da Guerra Fria voltaram a suspirar esta semana com a prisão em Nova York da jovem espiã russa acusada de usar seus encantos de mulher fatal, e ainda por cima ruiva, para seduzir funcionários do governo e empresários americanos. Buscava, diz a Polícia Federal dos EUA, “segredos íntimos” para o Kremlim. A história de Anna Chapman mexeu especialmente com a libido dos meninos que cresceram no Brasil a partir do final dos anos 1940 – e até meados da década de 60 – lendo as histórias de “Giselle Montfort, a espiã nua que abalou Paris”, clássico do onanismo moreno do pós-guerra. 

Giselle era uma espécie de Bruna Surfistinha a serviço da Resistência Francesa na cama de oficiais nazistas, uma devassa idealista na Paris ocupada. Levava sobre a garota de programa brasileira que virou best-seller mais recentemente a vantagem de ter suas histórias escritas pelo jornalista David Nasser, que inventou a personagem atendendo a um apelo do chefe Assis Chateaubriand para salvar da ruína o jornal carioca Diário da Noite. Narrada na primeira-pessoa, “a espiã nua que abalou Paris” fez da publicação um sucesso juvenil e ganhou vida própria numa série em pocket-book celebrizada por mais de 10 anos nas bancas pelas ilustrações eróticas de Benício.

Boa parte dos leitores da época não só achava que Giselle era real, como dizia que ela vivia ainda em Paris o anonimato de seu heroísmo carnal. Nisso, a loura que David Nasser inventou é completamente diferente da ruiva que o FBI apresentou ao mundo, com direito a link para o perfil da espiã no facebook. Ninguém acredita nessa história. O vizinho brasileiro de Anna Chapman em Manhattan “achava que a russa fosse uma prostituta de luxo”. Pode ser processado por isso quando os serviços de inteligência dos EUA perceberem, enfim, o equívoco que estão cometendo. Não existem espiãs de vida fácil!

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