Desmoralizaram o desaparecimento

Desmoralizaram o desaparecimento

Tutty Vasques

30 Agosto 2009 | 09h27

Texto publicado na coluna Ambulatório da Notícia do caderno Aliás deste domingo no ‘Estadão’.ILUSTRAÇÃO POJUCAN

A história dos desaparecidos no Brasil passa por um momento delicado com a inclusão oficial de Belchior na vasta lista de pessoas que, por motivos diversos – ainda que quase sempre trágicos -, sumiram do mapa sem deixar vestígios. O que constrange no misterioso caso do cantor e compositor cearense é o sotaque cômico que seu drama inspira até em parentes e amigos mais próximos. O próprio Fagner, com quem o conterrâneo teceu as velas do Mucuripe, lançou sexta-feira, na Globonews, a tese de que “ele vai voltar com o Michael Jackson”. Pode?

Na véspera, um sobrinho do autor de Como os Nossos Pais disse a uma rádio de Fortaleza que o tio famoso na voz de Elis Regina estaria descansando numa praia do Ceará. Descansando de quê, caramba? – logo se fez piada! Te contaram aquela de que ele teria composto Medo de Avião já imaginando a dívida milionária que o aguarda no estacionamento do aeroporto de Congonhas? Nem o The Guardian conseguiu tratar o assunto com a seriedade que se espera da cobertura do desaparecimento de uma personalidade artística. O jornal concedeu ao humor britânico licença poética para especular em suas páginas que “Belchior teria se isolado para traduzir A Divina Comédia, de Dante Alighieri”.

Na mesma linha, será que ele não virou funcionário fantasma do Senado ou realizou aquela “vontade de sumir” que todo mundo já sentiu um dia? Será que tudo é marketing de relançamento de carreira ou, se o problema é financeiro, não seria o caso de autorizar o artista a captar recursos pela Lei Rouanet para pagar ao menos o hotel que o tem na lista de estelionatários? Será que, quando tudo for esclarecido, Belchior será mais uma decepção na vida dessa geração que achava o máximo ser “apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco”?

Não sei que tanta graça acham nisso, né não?!