Eu no circo

Tutty Vasques

17 de outubro de 2009 | 06h28

Desconfio que naquela época, meados dos anos 1980, área vip no Brasil ainda era tão-somente uma sala de bacanas no aeroporto. Deve ter sido por isso que, logo na largada, me posicionei, sozinho, próximo à primeira curva do autódromo de Jacarepaguá, no Rio. Não estava ali para cobrir a corrida, o jornal havia me credenciado para fazer uma crônica sobre o movimento de Adrianes Galisteus pelos boxes antes dos roncos dos motores da Fórmula 1. Já tinha, pois, material para escrever quando, sem saber direito para onde ir, achei boa ideia me destacar do bando de jornalistas. 

Antes da quinta volta, o campeão Nelson Piquet entrou pelo guard rail a 20 metros do meu posto. Ele ainda estava saindo do carro quando cheguei para a entrevista mais breve de minha carreira de repórter: 

– O que houve?

– Suspensão! 

Como ele visivelmente não queria falar e eu não sabia o que perguntar, iniciamos ombro a ombro, em silêncio absoluto, uma caminhada de uns 300 metros até os coleguinhas que corriam em meu socorro. Durou, calculo, uns 30 segundos esse meu martírio profissional com transmissão ao vivo pela TV para todo o mundo. Acho que foi ali que eu percebi que meu circo era outro.

Texto publicado no caderno Cidades/Metrópole deste sábado no ‘Estadão’.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.