O cafofo do Osama

Tutty Vasques

08 de maio de 2011 | 06h18

svadgvaAcontece sempre que a polícia carioca apresenta à imprensa o esconderijo de um chefe do tráfico abatido ou expulso do morro: os sinais de riqueza aparente do bandido são sempre superlativados no noticiário. Ar condicionado no quarto dá ao cafofo status de imóvel de luxo. Se tiver TV de plasma na sala e piscininha na varanda, aí vira “mansão”. A ideia, imagino, é sublinhar que o safado vivia melhor que a gente, caro leitor. Enfim, bem-feito pra ele – perdeu, mané!

No caso de Osama Bin Laden, até se ensaiou chamar de “palacete” o que se via pelos satélites das forças especiais americanas, impressão que foi se transformando à medida que fotógrafos e cinegrafistas se aproximavam por terra do local da execução do terrorista. O tal “condomínio de luxo”, sabe-se agora, não passava de uma cabeça de porco, com 24 moradores dividindo espaço sem telefone, janelas, videogame, banheira de hidromassagem ou TV a cabo.

Ainda assim, persiste o tratamento de “fortaleza-mansão” dispensado pela imprensa ao complexo de lajes do ex-líder da Al-Qaeda. Só o britânico ‘The Guardian’ deu-se ao trabalho de ouvir um corretor de imóveis da região para corrigir as informações dos americanos sobre o esconderijo. O que chamavam de “complexo extraordinário de US$ 1 milhão em bairro chique de Abottabad” foi reavaliado em “US$ 250 mil (20 milhões de rúpias), se tanto, dado à mediocridade da vida em Bilal Town”.

Pode até não ser a maior mentira envolvendo a execução de Bin Laden, mas nenhuma outra soa tão desnecessária. Afora o galinheiro próprio e a quantidade de bode adquirido no açougue, os jornais destacam como sinal de abastança do terrorista os gastos da família na vendinha da esquina, com ênfase no consumo de Coca-Cola, Pepsi, leite Nestlé e “xampu da melhor qualidade”.

Só quem já viveu em caverna sabe que espécie de luxo é esse, né não?

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