O drama de ser mulher de milionário no Brasil

O drama de ser mulher de milionário no Brasil

Tutty Vasques

13 de julho de 2008 | 09h09

ilustração pojucan

Daniel Dantas, Naji Nahas e Celso Pitta podem até estar sabendo por que foram presos durante a semana, mas a verdade é que a sociedade brasileira não sabe muito bem porque os prendeu. A maioria aprovou a ação – rico algemado é tão divertido quanto pobre de limosine -, mas não há cidadão razoavelmente bem informado que de vez em quando não pare pra pensar que diabos os fundos de pensão têm a ver com as calças. E o Marcos Valério, meu Deus do céu, como é que surgiu o nome dele junto com o da irmã de Daniel Dantas, o do filho de Naji Nahas, o próprio Celso Pitta, mais o Mangabeira Unger, o Gushiken, a Brasil Telecom, a CPI dos Correios, um certo João candidato a presidente, a Amazônia Celular, o Mensalão, o Gilberto Carvalho, o Eike Batista e o escambau?

O José Dirceu a gente até entende. O ex-ministro virou personagem itinerante dos escândalos em cartaz. Um vilão de meia dúzia de novelas simultaneamente no ar em emissoras diferentes. Mas, fora ele, está cada vez mais complicado entender o noticiário desde que todas as falcatruas nacionais começaram a convergir para o mesmo golpe. Como se houvesse uma única quadrilha em atividade no País, controlando tudo: do mercado financeiro ao achaque a camelôs da região da Mooca, passando pela emissão fraudulenta de carteiras de motoristas e pela privatização das teles.

O povão, coitado, sabe o que é roubo, furto, estelionato, latrocínio, estupro, seqüestro relâmpago, ‘saidinha’ de banco, assassinato, 171, ‘boa noite, Cinderela!’, bafômetro… De repente, só se fala em gestão fraudulenta, evasão de divisas, informação privilegiana, sonegação fiscal, espionagem… Cá pra nós, chamar uma operação policial de Satiagraha já é meio caminho andado para não esclarecer coisa nenhuma.

O povão não entende nada, mas está adorando a farra. Eu tenho pena é das mulheres dos milionários brasileiros que não fazem a menor idéia do que seus respectivos maridos fazem nos bancos, nos gabinetes palacianos, nas Ilhas Cayman… Senhoras finíssimas que leram nos jornais que o Ministério Público considera a mulher de Daniel Dantas ‘laranja’ dele por ter uma empresa em seu nome e movimentar uma conta bancária da respectiva pessoa jurídica. Nove entre 10 madames brasileiras praticam este expediente sem nunca ter imaginado que isso pode dar cadeia.

É especialmente para essas adoráveis peruas – até porque o povão não sabe nem o que é workshop – que eu sugiro a criação de um centro permanente de atualização básica em matéria de crimes financeiros. Ninguém merece ter seu jardim pisoteado por agentes da Polícia Federal sem fazer a mínima idéia do que está acontecendo.

Texto publicado originalmente no caderno Aliás do ‘Estado’.

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