O fim do mundo que não acabou!

Tutty Vasques

11 Setembro 2011 | 00h01

ILUSTRAÇÃO POJUCANVisto aqui do futuro, uma década depois daquilo tudo, o ano em que o mundo quase acabou caiu na manhã de uma terça-feira de sol de verão em Manhattan. Fora do 11 de setembro, não sobrou espaço para mais nada na memória retrospectiva de 2001. O ano de estreia do terceiro milênio praticamente não existiu antes do choque do primeiro avião contra a Torre Norte, às 8h45, ou depois do desabamento da outra torre gêmea, a Sul, às 9h50. O que importa saber aconteceu em exatos 65 minutos! Tudo mais, de 1º de janeiro a 31 de dezembro, ganhou a irrelevância dos fatos em tempos de apocalipse.

Ninguém por aqui jamais vai se lembrar de 2001 como o ano da renúncia do finado ACM no Senado, da separação de Marta e Eduardo Suplicy em pleno domingo de Páscoa ou do sequestro da filha de Silvio Santos.

É grande a lista de acontecimentos datados que perderam identidade com seu tempo sob os escombros do terror. Na época, os ataques da Al-Qaeda aos EUA dividiram espaço no noticiário com o ranário da mulher do Jáder Barbalho, a ideia de maluca de mudar o nome da Petrobrás para Petrobrax, o casamento de Fábio Jr. com Patrícia de Sabrit, a cartelização do papel higiênico, o pouso de barriga de Anthony Garotinho em Campinas e o assassinato do Toninho do PT, entre outras coisas esquecidas de 2001.

Lembra do disco voador que deu em cima da Tiazinha na Marginal Pinheiros? E da edição histórica da revista ‘Caras’ que elegeu Gerald Thomas “celebridade do ano”? Afora a mãe de Gugu Liberato, apagamos todos da agenda positiva de 2001 o pronunciamento do apresentador assumindo namoro sério com a “garota da banheira” de seu programa.

O mundo pop também passou em brancas nuvens! Madonna se casou na Escócia, a cantora mexicana Glória Trevi se reproduziu em cativeiro no Brasil, Michael Jackson chegou ao cúmulo de fazer palestra sobre o bem-estar infantil na Universidade de Oxford e, nem assim, nada disso conseguiu posteridade maior que o roubo do violão de estimação de Caetano Veloso, se é que alguém ainda se lembra desse drama pessoal do artista baiano.

Foram inúteis todas as tentativas inusitadas de se perpetuar através da mídia em 2001! Cientistas chineses anunciaram o implante do tecido da bexiga de um cachorro nas costas de um rato. Foi inventada na Inglaterra a torradeira elétrica que, acoplada à internet, imprime a previsão do tempo no pão, A poeira da perplexidade ainda não havia assentado quando o Vaticano achou que havia chegado a hora de pedir desculpas aos aborígines australianos!

Quem leu tanta notícia recorda-se vagamente de que, aqui no Brasil, o então ministro da Saúde, José Serra, ameaçou proibir o Elixir Paregórico. Mais: a Comissão de Defesa Nacional da Câmara aprovou projeto de lei proibindo sumariamente empinar pipas em todo País.

Sorte do Edmundo que, afora a efeméride do 11/09, ninguém guarda lembranças do ano em que ele foi eleito o pior jogador estrangeiro da Itália.
O esquecimento, por vezes, é conveniente a todos: se você nem sabe mais direito quem foi Alcides Tápias no governo FHC, melhor para o ex-ministro, que não precisa mais explicar que deixou ó Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior porque é muito chato ter um Porsche vermelho turbo na garagem sem poder dirigi-lo por incompatibilidade da máquina com o cargo!

Azar da Daniela Mercury, que brilhou como nunca na cerimônia de entrega do Prêmio Nobel da Paz de 2001, na Noruega, e nem assim conseguiu livrar sua performance inesquecível do limbo da memória! Só se fala hoje em dia do fim do mundo que não acabou naquele 11 de setembro de 10 anos atrás! Ainda bem que amanhã já será dia 12 – se é que vai haver dia 12, né?