O inferno astral do inverno austral

O inferno astral do inverno austral

Tutty Vasques

20 de setembro de 2009 | 00h02

ILUSTRAÇÃO POJUCAN

Não foi um inverno como outro qualquer esse que termina na próxima terça-feira, 22, se é que vai haver equinócio de primavera este ano no hemisfério sul. Mais que as maluquices climáticas que fizeram encher os rios e secar o ar, cair a temperatura e, de repente, parecer verão, a estação iniciada em 21 de junho passou para o brasileiro a sensação de que há décadas não acontecia tanta coisa e nada ao mesmo tempo. Retrospectivas de inverno não são muito comuns, mas 2009 merece, tantos foram os fatos irrelevantes que marcaram o noticiário dos últimos três meses.

Da lipoaspiração na barriga de Ronaldo Fenômeno ao marco regulatório do pré-sal, do desaparecimento de Belchior ao encontro secreto de Dilma Roussef e Lina Vieira, da asfixia autoerótica de David Carradine à volta de José Mayer ao papel de galã nas novelas da Globo, tudo ocorreu muito rápido, praticamente entre a morte e o enterro de Michael Jackson, sem que a imprensa desse conta sequer de acompanhar o féretro sem perder o corpo de vista.

O inverno austral marcou, em particular, o inferno astral de Romário, Robson Caetano e Acelino Popó Freitas, ídolos do esporte que suaram a camisa dando explicações em delegacias do Rio e de Salvador. Nada que tirasse de Nelsinho Piquet e sua patética história na Fórmula 1 o lugar mais alto do noticiário esportivo da temporada. As cadeias de São Paulo também ganharam um brilho especial com as presenças ilustres da empresária Tânia Bulhões e do fantástico Dr. Roger Abdelmassih, que, sem nenhum favor, dividiu com o médico de Michael Jackson a fama de vilão da estação. O ex-cirurgião Hosmany Ramos também foi preso na Islândia, mas esse já não gozava de qualquer reputação em matéria de medicina.

Mas nem tudo que deu errado neste inverno foi caso de polícia! O jogador Alexandre Pato, por exemplo, casou e perdeu a vaga na Seleção. O veterano Denílson passou 45 minutos atuando no futebol do Vietnã, tempo suficiente para decidir voltar ao Brasil e pendurar as chuteiras. Saber a hora de parar foi o que faltou a Galvão Bueno nas sessões de bronzeamento artificial. O locutor chega ao fim da estação mais queimado que o inglês de Joel Santana na Copa das Confederações, ainda que nada nesse meio de ano tenha torrado mais a paciência do torcedor brasileiro que as vuvuzelas sul-africanas. Em contrapartida, Felipe Massa, Rubinho e Dunga chegam sãos e salvos ao final da temporada.

No time que entrou numa fria, a mulher do senador Arthur Virgílio precisou vender bens para pagar a dívida de seu marido com os cofres públicos. Moralmente, o grande derrotado no Congresso foi Aloizio Mercadante, que, no entanto, não precisou meter a mão no bolso para revogar o irrevogável. Não que isso seja grave num país em que, como disse Paulo Duque, presidente do Conselho de Ética, “Pero Vaz de Caminha pediu emprego para um primo”, muito antes do advento da família Sarney.

No Senado, quase ninguém se salvou entre a cirurgia de redução do estômago de Heráclito Fortes e a operação de extração do apêndice de Pedro Simon, apesar da performance de Eduardo Suplicy, que deu cartão vermelho para o presidente da Casa e trocou Bob Dylan por Cat Stevens em seu repertório parlamentar. Em compensação, Fernando Collor virou imortal em Alagoas com a frase “engula, digira e jogue no ventilador!” Não à toa, os pizzaiolos sentiram-se ofendidos com a comparação que Lula fez do ofício gastronômico com a atividade parlamentar.

No mais, José Dirceu passou férias na Disney; MV Bill e Delfim Netto pediram juntos demissão do conselho curador da TV Brasil; Felipão encontrou sua turma nos Uzbequistão; Caetano levantou um troco pela Lei Rouanet; a modelo Kate Moss jogou o laptop de seu namorado na piscina; Mangabeira Unger deu no pé; José Serra encarou um guisado de bode em Exu (PE); Lula não saiu em defesa do Bispo Macedo; Heloísa Helena chamou uma colega vereadora em Maceió de “porca trapaceira”; Diego Hypolito ganhou uma namorada de ouro; José Saramago fechou seu blog; Xuxa rompeu com o Twitter e o galã George Clooney disse à revista People que prefere exame de próstata a entrar no Facebook; só Hélio dos Anjos, técnico do Goiás, assumidamente, não trabalha com homossexual.

Isso tudo quer dizer o seguinte:

O inverno foi muito mais rigoroso na Argentina. Vamos lá, sorria: terça-feira começa a primavera! Quer mais o quê, caramba?!

Texto publicado na coluna Ambulatório da Notícia deste domingo no caderno Aliás do ‘Estadão’.

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